O presidente do PSD-M pode dizer o que quiser, pode ameaçar, gritar, esbracejar, espernear. A verdade é que 1644 militantes do PSD-M, com quotas pagas, disseram ontem a Jardim que já chega, que o seu tempo passou. E há ainda outra verdade: no final da votação, se fosse possível, muitos mais teriam votado em Albuquerque, teriam feito História e Jardim teria passado à história. O presidente pode dizer o que quiser, mas não pode escamotear uma eleição com meios claramente distorcidos em que o resultado será tudo menos o que esperava. Pode dizer, como disse, que é uma vitória. Tem razão, bastaria um voto para poder reclamar vitória. Mas é, de certeza, a vitória mais amarga que alguma vez foi obrigado a ‘saborear’. Também pode dizer que já esperava resultados difíceis por causa da crise e dos desempregados políticos. Pode ainda jurar que o apunhalaram pelas costas. Que foi traído. Até pode ameaçar os dirigentes concelhios onde teve piores resultados. O líder legitimamente reeleito pode dizer tudo isso. Só não pode fingir que não percebeu a humilhação que recolheu após tanta reunião com militantes e propaganda no seu JM pago com o nosso dinheiro. Não pode afirmar que não entendeu o grito de revolta de militantes, novos e velhos, que estão cansados de autoritarismo, de política feita em cima do joelho, de governação à vista, de democracia de fachada, de linchamentos internos. Se restasse ao presidente que se julgava único importante um pingo de dignidade política e democrática, teria apenas um comentário a fazer depois da sova eleitoral que sofreu. Se tivesse bom-senso e respeito pelo partido, pelos militantes, pelos cidadãos adaptaria a declaração de Humberto Delgado e diria: “Obviamente, demito-me”. Bastavam essas duas palavras para demostrar um restinho de sentido de estado, de responsabilidade, de sensatez. Mas não. Em vez da demissão óbvia, Jardim optou pelo igualmente óbvia decisão de que não se demite da liderança do partido e muito menos do Governo. Ficou claro que apenas se demite do que não pode: da responsabilidade que tem ao nível do partido e do governação. Com a maior hipocrisia possível no mais ténue regime democrático, o líder quase escorraçado pelos seus tentou os habituais números. Até foi à decrépita comparação entre as suas ‘lindas’ bochechas e o “escanzelado” Albuquerque. Até foi capaz de chorar lágrimas de plástico sobre a divisão do partido enquanto ameaçava os que lhe fizeram frente. Triste figura de quem se aventura por um caminho único. Figura igualmente triste fazem e farão os que agora se vão afastar do presidente que diziam apoiar. Tanto os apaniguados que sempre aproveitaram enquanto deu, como os ‘corajosos’ que estavam quase a fazer parte da corte e agora voltam a plebeus. Feitas as contas a este inesperado resultado, importa salientar que o equilíbrio de ontem representa a hipótese de sobrevivência do PSD no poder. Resta saber se este pântano em que se tornou o partido aguenta até às eleições regionais de 2014 ou cai antes do tempo. E resta também saber como vai posicionar-se a Oposição para estancar uma maioria social-democrata que dá sinais de vitalidade. Fora de qualquer campo de dúvida, fica uma certeza clarinha: 1644 militantes do PSD-Madeira querem correr com Jardim da liderança. Alguém que diga isso ao presidente, pois ele parece ser o único que ainda não percebeu que está a mais.