O presidente do Governo Regional e ainda líder do PSD-Madeira é detentor de vários recordes na política portuguesa. O último que nos ocorre é o facto de ser, seguramente, quem mais evocou uma tal de ‘revisão constitucional’. Jardim constipa-se e exige uma revisão constitucional; faz sol e lá vem a exigência da revisão; começa a chover e Jardim lembra-se de exigir a revisão da Constituição; falta-lhe dinheiro para mais desvarios e, claro, uma revisão vinha mesmo a calhar. Ganha eleições, pede uma revisão constitucional; perde metade do seu partido e saca do mesmo ‘ás de trunfo’: a revisão. Jardim não escolhe sítio para pedir uma revisão da Constituição. É no parlamento (quando lá vai), é nas inaugurações (ultimamente a pedido), é no JM, agora foi no congresso que o consagrou presidente de meio partido. Como agora a malta está a perder o medo e já começa a ter dúvidas, mais dia, menos dia, Jardim vai ter mesmo de esclarecer, finalmente, para que é que quer uma revisão e em que é que isso contribui para a felicidade dos madeirenses. Obviamente que a maioria dos madeirenses não desconhece que uma revisão constitucional, quando não vulgarizada da forma como o faz Jardim, é um instrumento fundamental que deve ser utilizado com ponderação e responsabilidade. Durante muitos anos julguei que o presidente do PSD-Madeira agitava aquela ‘bandeira’ como forma de distrair o povo e os partidos da Oposição, aproveitando essa distracção para avançar com outras coisas da governação, à sua maneira. Mas, por tornar-se demasiado óbvio e recorrente, convenceu-me que se trata de uma mera habilidade política, uma estratégia repetida até à exaustão para parecer que está preocupado e ocupado com o povo e as suas dificuldades. O último ministro da República para a Madeira – que passou a ser também o primeiro Representante da República – desmistificou várias vezes o ‘contencioso das Autonomias’ e a lengalenga das exigências a Lisboa. Disse e repetiu que a Madeira e os seus políticos estão longe de esgotarem todas as potencialidades do actual quadro constitucional; que havia muitas oportunidades que não estavam a ser devidamente aproveitadas. Lembro-me que, na sequência de um desses desafios, Jardim ordenou aos seus parlamentares um levantamento exaustivo de todas as brechas que não estavam a ser rentabilizadas em benefício da população. Até hoje. Os madeirenses têm mesmo de desconfiar de tanto pedido de revisão constitucional, em vez dos responsáveis explorarem as faculdades existentes que não sabem ou não querem rentabilizar. Não nos podemos esquecer, por exemplo, de um processo similar com o Estatuto Político Administrativo da RAM, que nos foi apresentado como a panaceia para todos os males e que, agora, praticamente só serve para que o presidente do Governo e o presidente da Assembleia Regional tenham permissão legal para acumularem ordenado e reforma. Para além de obrigar os cofres públicos a garantirem ‘jackpots’ mensais aos partidos. Se a próxima revisão é apenas para criar a figura de Presidente da Madeira, ou algo do género, de modo a resolver problemas pessoais num futuro próximo, então dispensamo-la mesmo. Um presidente de Governo responsável devia hierarquizar as prioridades da governação.