O Orçamento de Estado para 2013 foi aprovado pela maioria parlamentar, como se esperava e previa. Não houve surpresas de última hora, golpes de teatro ou chapeladas. Chegou a temer-se uma iniciativa de 18 deputados do PSD, que estariam a elaborar uma declaração de voto conjunta, a qual corria o risco de fragilizar a posição do Governo. Mas esta congeminação não passou da fase de projecto. Consta que o Ministro Relvas, esse omnipotente titereiro, foi decisivo no silenciamento da iniciativa. Mais uma vez, pior a emenda que o soneto: para votar SIM por obrigação, de forma automática e em estrita obediência a ordens superiores, já lá estavam muitos, incluindo o notável quarteto do maestro Jardim. Trocou-se uma tomada de posição, quiçá medrosa, por uma falaciosa unanimidade, essa sim merdosa… Da parte do CDS-PP o filme não diferiu muito. Numa posição cada vez mais desconfortável, sem conseguir disfarçar nem esconder o despeito e desrespeito de que têm sido alvo pelos parceiros de coligação, o melhor que os democrata-cristãos conseguiram arranjar foram três declarações de voto - e um voto contra, do deputado madeirense Rui Barreto, que também apresentou declaração de voto. Considero que faz todo o sentido o deputado Rui Barreto respaldar o seu inequívoco NÃO numa declaração de voto, até porque o fez em clara desobediência à disciplina partidária com que tentaram, até ao último minuto, manietá-lo. Já no que concerne aos votos SIM com declaração associada, são um pouco como dar uma facadinha no matrimónio (mas só em pensamento) e mesmo assim já ter hora marcada no confessionário, para pedir remissão dos pecados. Para mim não colhe o argumento de que mais vale um mau orçamento, do que não ter orçamento. É uma tirada "tapa-buracos", que dá para tudo: mais vale um mau governo do que não ter governo; um mau presidente do que um presidente inútil; ou até mesmo mais vale não ter líder do PS do que ter este… Mas este orçamento não é só um instrumento que o Governo acredita (será que acredita?) ser executável - este orçamento é em si mesmo um instrumento de execução. Porque vai matar uma economia já de si moribunda, porque vai empobrecer as famílias de forma insustentável, porque vai tributar violentamente os pensionistas, porque não é ético nem equilibrado, porque ignora as autonomias e humilha os contribuintes. A partir de 2013 perguntem a qualquer um dos milhões de portugueses que vão certamente estar numa situação muito precária: - Mais vale ter um mau emprego do que não ter trabalho? Mais vale ter uma má refeição do que passar fome? Mais vale ter uma má vida do que acabar com ela? Será que a única alternativa ao mau é apenas o ainda pior? Quanto ao deputado Rui Barreto, digam o que quiserem, efabulem que é um número circense, que é uma estratégia concertada com Paulo Portas, usem a vossa imaginação à vontade, que por enquanto ainda não são tributados. Eu não me considero suspeito ao defendê-lo, só porque partilhamos a ideologia e a militância partidária. Tratou-se, acima de tudo, dum acto de inquestionável coragem, nobreza de carácter e coerência política. A pressão e as ameaças (mais ou menos veladas) foi ele que as sofreu, e mesmo que o seu voto tenha emanado duma decisão colegial, deve ter sido enorme a solidão daquele momento. Que o CDS nacional persista em agitar a bandeira do processo disciplinar, é mais um pobre sinal dos tempos - democracia representativa não é isto, exercer livremente um mandato não é ser fantoche duma estratégia. Qualquer castigo que venha a ser aplicado a Rui Barreto, e não será só o líder regional, José Manuel Rodrigues, a exigir idêntica penalização, mas sim a esmagadora maioria dos restantes dirigentes, e só não digo todos porque só costumo falar em meu nome. Venham de lá esses castigos, para os usarmos como medalhas! O único julgamento legítimo será o dos eleitores, que a seu tempo certamente dirão de sua justiça.

Raul Ribeiro