Não jogo nem aposto por convicção. E não apenas porque a sorte não me acompanha nessa faceta da vida. A face mais perversa do capitalismo, da especulação e do sonho do dinheiro fácil tem hoje uma palavra: Euromilhões. A urbanidade em que nos movimentamos criou-nos a ilusão de que tudo podemos alcançar, de que todos nós por mais átomos que sejamos podemos lá chegar. A ilusão do luxo, do conforto, da riqueza; é isto que movimenta o dia-a-dia de milhões de cidadãos nas sociedades pós-modernas à escala planetária. Se pensarmos que o Euromilhões - esse grande desígnio que milhões de cidadãos europeus semanalmente perseguem com um fanatismo primário - não existiria se cada um dos apostadores não investisse um cêntimo, talvez equacionássemos em dar melhor destino a essa verba. "Mas olhe que se não jogar não ganha", dizem-me com frequência. Pela parte que me toca prefiro não ganhar nada do que viver na ilusão de que uma infinitésima probabilidade estatística me vai atribuir, a mim, um chorudo prémio. E esta opção tem a vantagem de ser mais barata, pois o investimento é nulo. Cresci fiel ao princípio de que sem esforço, mérito e perseverança nada se conquista e a doentia ilusão de que o amanhã será muitíssimo melhor a troco de uns cêntimos apostados em modo aleatório em nada me atrai. Nada deve impedir o homem de sonhar e de poder aspirar a um futuro melhor do que aquele que recebeu no passado. Mas para alimentar a alienação alheia a troco de um "sonho" prometido não contem comigo. Não contribuirei com um cêntimo para esta euroilusão para a qual nos arrastam. E insisto: se ninguém jogar não há prémio e toda essa poupança teria, seguramente, melhor desígnio. Um dia filha, tudo isto será teu…

Luís Sena-Lino - Consultor de Marketing e Comunicação