
Após mais uma longa maratona negocial, de cerca de 13 horas, os ministros das Finanças da zona euro conseguiram alcançar o consenso nas 17 pontes desta Babilónia continental para chegar a um acordo quase existencial sobre a assistência financeira à Grécia. Está meio caminho andado para abrir os cordões à bolsa e desembolsar perto de 44 mil milhões de euros para a próxima tranche de ajuda a Atenas. Para quem acredita no Pai Natal e está convicto que o barbudo é um europeu loiro alto de olhos azuis que vive na Lapónia, é a prenda ideal para fortalecer o espírito de solidariedade nesta quadra. Para os pobres do sul é, enfim, uma oportunidade para sentar e ficar calado, esperando migalhas, a ver cantar os parabéns ao bolo do Tratado de Maastricht onde estão 20 velas acesas.
O obstinado e obediente obcessivo aluno europeu, esse tal de nome Portugal, olha de lado para o Mar Egeu. No dia em que a Assembleia da Repúbica aprovou o Orçamento de Estado mais austero que a história da democracia já conheceu, o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, ouviu o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, afirmar que o nosso país, tal como a Irlanda, ambos a braços com programas de (re)ajustamento, terá o mesmo pretenso benefício, ao abrigo do princípio de igualdade de tratamento. Mas que mais restaria a Bruxelas: chumbar o aluno mau e fechar a escola europeia? Continuar o arraial de porrada? Beneficiar o infractor? Resta saber o que é isto de beneficiar todos os países que têm programas de ajustamento.
Ora, se os governos vão poder beneficiar de uma redução dos juros dos empréstimos a pagar aos credores e estender os prazos para o pagamento dos valores em dívida, isto pode significar uma de duas coisas: um balão de oxigénio para os portugueses ou mais um pudim de maracujá para Vitor Gaspar. Ele, que é um tecnocrata europeísta assumido, leal e obediente como um cão que morde a mão do dono e não ladra a estrangeiros, se calhar até estava à espera que lhe viesse parar ao prato a proposta que todos reclamavam como óbvia mas que o seu governo, que tantas vezes confunde diplomacia com submissão, nunca teve coragem para negociar com Bruxelas. Mas será que alguém acredita que isto mudará uma vírgula sequer de uma casa decimal das receitas fiscais que o governo prevê arrecadar? Portugal, sendo devedor, até pode beneficiar das mesmas condições de financiamento que a Grécia. Mas e depois? Não somos também os seus credores? Quanto vai custar mais este perdão de dívida pública grega e quem vai pagar esta nova descapitalização dos bancos e dos estados pedintes que emprestam dinheiro?