
O Censos 2011, ontem apresentado, torna ainda mais complicadas as contas sobre o nosso futuro e sobre a subsistência do estado social que, somados a um indicador que o estudo não contempla – a emigração de mão-de-obra e a exportação de inteligência – faz-nos entender que teremos défices para pagar em três gerações: défice democrático, défice financeiro e défice demográfico.
Embora o envelhecimento se processe a um ritmo mais lento do que na média do país, na Madeira temos apenas dois trabalhadores da população activa empregada por cada reformado ou pensionista. Dá para as encomendas do presente, mas é um presente envenenado para o amanhã. Se formos a ver a evolução na última década, constatamos uma aproximação perigosa entre o número de activos e inactivos: 127 mil sustentam 96 mil.
O facto de haver 91 idosos para cada 100 jovens e de o saldo ser aparentemente positivo, só pode servir de consolo se nos compararmos ao pior exemplo: o resto de Portugal. Parece óbvio que não há mais gente a nascer, há, antes, mais gente a morrer, não tivesse a Madeira a esperança média de vida mais baixa do país, não vivessem os homens madeirenses menos cinco anos do que a média do resto do país – um 'case study' para os académicos – e não tivéssemos registada a mais baixa taxa de natalidade de sempre.
E se olharmos para o desemprego, percebemos porque razão o nosso país se transformou na Polónia de há 10 anos: gasta milhões de euros na formação de técnicos especializados que depois exporta a custo zero para outros países europeus onde existem políticas de incentivo à natalidade (que fazem o nosso governo corar de vergonha) para combater o défice demográfico, tão ou mais profundo do que o buraco das nossas pobres contas públicas. Ora, em finais de 2011 tínhamos cá 18.676 desempregados, mas menos de metade recebiam subsídio. Hoje, a Madeira tem a 2.ª taxa de desemprego mais elevada do país: 23.582 indivíduos. Valemo-nos da família, essa benemérita instituição que se assume como o grande pilar da solidariedade social. A família substitui-se ao estado despesista e assume a seu cargo perto de 42 mil pessoas.
Este défice demográfico de que falo não está dissociado de outro défice que somos obrigados a 'conviver': o financeiro. Afinal, quem quer colocar no mundo uma criança para ter no berço uma dívida pública de 24 mil euros como herança? Quer me parecer que este défice financeiro também não nasceu órfão. Tem como responsável um défice democrático que insiste em adiar a paternidade mas que é tão evidente e real quanto os 16.767 analfabetos (7% da população madeirense que é a 2.ª maior taxa do país) e o abstencionismo cívico numa Região cujo governo insiste em avaliar a maturidade democrática através da participação eleitoral de 4 em 4 anos, como se a cidadania não fosse um exercício diário.
Mas descansemos irmãos, porque o presidente do governo regional está farto de ser o “bombo da festa”. Não porque vai deixar de queimar dinheiro na política de circo, nos pasquins a propagandear a lealdade cega ao poder absolutista ou nos arrufos que se ouvem ecoar nas montanhas, nos intervalos de música pimba nos planaltos da ilha. Alberto João Jardim diz que está farto dos entraves burocráticos e da ineficiência da administração pública. Não é que esteja muito preocupado com isso. O presidente do governo da Madeira está é com “menos pachorra para ser responsabilizado” por "erros que nem sabia que existiam”. Nada de novo, portanto. Assim tem sido a governação ao longo de 36 anos.