O acto isolado de Rui Barreto votar contra o Orçamento de Estado (OE), cujo Governo o seu partido suporta, de nada vale a não ser vincar rebeldia. A aprovação do documento não dependia do voto do madeirense e por isso a agenda de austeridade da dupla Gaspar/ Passos Coelho vai mesmo ser aplicada em jeito de castigo a este povo, que é o melhor do Mundo, mas que gasta mais do que pode, segundo dizem.
Fica sempre a pergunta: Se a aprovação dependesse de um único voto a postura seria a mesma?Apesar das reticências, o furo da disciplina de voto não pode ser desvalorizado. E não é à toa que para se encontrar uma acção semelhante é preciso recuar a 1977, no Governo de Mário Soares. Os dois militantes do PS que se rebelaram foram expulsos.
Do ponto de vista individual é sempre um momento muito difícil num jogo de alta pressão, que se faz mais em bastidores do que no plenário. E porquê? Porque nenhum partido gosta de 'prevaricadores orçamentais'. Nenhum. É a abertura de um precedente que é sempre perigoso.
E se para muitas pessoas esta imposição de disciplina é uma aberração democrática, a verdade é que ela é fundamental para a estabilidade política. Um Governo não pode governar sem Orçamento, embora por vezes fosse preferível. E um país não pode andar sistematicamente em eleições. Por isso um voto contra um OE, não é apenas contra um OE, é contra o Governo que o apresenta, é, neste caso, um cartão vermelho a promessas eleitorais que cheiram a mofo.
Mas a questão levanta outras tantas: Os deputados devem zelar pelos interesses da Região por onde são eleitos ou devem ter em conta o bem (neste caso mal) comum do país quando votam um Orçamento? E no caso da Madeira, quem defende melhor os interesses da Região? Os que enfrentam politicamente com o voto ou os que tentam negociar longe das objectivas? Qual a diplomacia que dá melhores frutos?
O PSD-M não tinha margem para fazer igual. Seria mais irresponsável que esta política de quase 40 anos que conduziu o PSD e os madeirenses a este beco sem saída, os quatro deputados insulares enfrentarem Passos Coelho. Pelo simples facto de que este Governo, maioritariamente social-democrata, é o que mais se tem insurgido contra os desvarios jardinistas. E fechou a torneira. Neste momento não pinga nada de Lisboa. O PSD-M parece o pedinte que é mal-tratado mas que volta porque sabe que depois dos impropérios virá uma esmola.
Rui Barreto, a bem dizer, sofreu as agruras da solidão parlamentar para nada. Aliviará pouco ou nada a austeridade que vão impor aos cidadãos do continente ou da Madeira. Mas quando se levantou, sozinho, contra o Governo e o seu partido foi a voz muda, na Assembleia, de muitos que gritam nas ruas contra os sacrifícios cegos que este Governo quer impor. Não há democracia sem disciplina, mas também não há sem rebeldia.