Na alvorada de uma era, um novo português - o duro - anda a apontar à jugular. Não é fácil ir a todas. Num dia, Ferreira Leite: "é difícil resolver problemas complexos em Democracia". "A culpa é dos políticos!", brande o duro. Mal o duro desliga o Caps Lock, entra Ulrich, com a desenxabida noção de que o País "ai, aguenta, aguenta mais austeridade". "A culpa é dos banqueiros!", atesta o duro. Logo quando a última pedra do Carmo e da Trindade rolava pelo duro, surge Isabel Jonet, com a inflamável noção de que "não há miséria em Portugal". "Queres é um pobre, para expiar a culpa! A culpa é tua, sua queque! ", dramatiza o duro. Ainda o duro lutava contra a caixa de anti-histamínicos, e eis que Merkel chega a Portugal. Merkel! "A culpa é dos alemães!", grita o duro, em combate inglório contra o seu sistema nervoso, enquanto cita factos aleatórios sobre o Holocausto e a noite das facas longas. E terá sido em estado de pré-colapso que o duro, com o fôlego possível, condenou a violência policial na dispersão de multidão da greve geral. Fique claro, não tenho nada contra as lutas do duro. O duro tem direito à discórdia e até pode acertar. Mas permito-me emprestar o pensamento de Christopher Hitchens: "o importante não é o que se pensa, mas como se pensa". E o duro pensa mal. Inimigo da gramática, da subtileza e da coerência, escondido atrás de um perfil inconsequente ou anónimo, o duro diz-se "sem medo" quando, na verdade, lhe falta (como diz o povo) "cu" - percepção da delicadeza das relações humanas, da dificuldade de progredir perante a resistência do status quo. Do quanto ele depende, na verdade, desse status quo e dos outros. Do esforço diário, frustrante e apenas marginalmente consequente que muda mentalidades e hábitos. Não, o duro quer o Éden. Quere-lo imediatamente. Ouve os amanhãs que cantam já hoje. É triste que o duro se recuse aceitar o quão verdadeiramente evolucionário (e talvez revolucionário) seria treinar a humildade de reconhecer futuras opressões no seu próprio padrão de pensamento. Duvidar metodicamente, contextualizar, responder à altura. Compreender a diferença entre espírito crítico e a crítica não-sustentada, acéfala e generalizada a tudo o que não é perfeito no projecto frágil e falível chamado Humanidade - e envolver-se nele. Mas não. O duro não dança. O duro é um indignado. Embora não o saiba, é também alguém com um forte desejo inconsciente de que tomem conta dele e o dispensem das provações da vida comunitária. O duro anseia entregar-se a um Poder Superior que limpe estes banqueiros, economistas, polícias e vítimas de momentos infelizes em geral da face do planeta e o leve (ao duro) para a Terra Prometida. Esse Poder Superior adora os duros, recebê-los e alimentá-los. Qualquer totalitário rejubila, primeiro secreta e depois publicamente, com a irracionalidade obstinada. Também por aí se explica o ódio à caridade, à polícia, o desejo de roer a corda com a Troika. Portugal está muito mal, mas o final de projectos como o Banco Alimentar, da ordem pública e do plano de resgate seria o golpe de graça, a última gota, o tijolo dourado na estrada da revolução. O duro aguarda com gáudio esse dia, onde, duro como só ele, aplaudirá o fim da liberdade de ser duro. O dia em que, por fim, o duro dançará. Quer queira, quer não.

Pedro Fontes