Sabíamos já que, muito provavelmente, tínhamos subido demasiado alto, mas ainda acreditávamos que a queda seria impossível. Equilibrados em esperança, tívemos fé, esse imponderável que não se questiona em céu azul.

Mas, quase chegados ao topo, o desequilíbrio tomou a forma de uma queda. Estamos agora no escuro, desorientados, ainda atordoados pela velocidade, ainda incrédulos, ainda a sentir o vento frio do desconhecido.

Olhamos em desconfiança para os que nos tentam convencer que é debaixo de água que se resspira melhor. É sempre impossível acreditar em circunstâncias que fisicamente sabemos serem impossíveis. Não há experiência com resultados mais definitivos do que aquela que testamos com o corpo inteiro.

E esta gente que hoje sai à rua, que grita, corre, protesta, levanta os braços, abre a boca e não sorri, sabe, de um saber físico, que a queda não é sensação passageira, mas sim uma dor concreta, surgida do lado certo da pele.

Esta gente não vai cair em silêncio, nem em sossego,nem em obediência. Há uma revolução surda a percorrer as ruas, a dominar o país e a ilha. Há um manso levantar do chão que ameaça transformar-se num feroz levantar de uma razão que ainda mantemos. Nenhum país pode cair assim tão intensamente, nenhuma ilha se pode afundar sem que os naúfragos tentem pelo menos salvar a montanha mais alta.

Não saber disto é continuar a cair para lá do chão. E essa experiência já não se fará apenas com o corpo, mas com a alma inteira, e depois disso será mais difícil um regresso.