Foi desta forma que o Governo Regional se referiu, por escrito, aos madeirenses que se manifestaram esta semana, no Funchal, à porta da Quinta Vigia. É “gente que berra”, escreveu alguém do gabinete da Presidência do Governo. Assim, com estas letras todas, com esta violência desproporcional, ao jeito de quem carrega no teclado com a mesma raiva de quem baixa o bastão sobre velhos e mulheres. Talvez este governo ainda não tenha percebido que os tempos começam a ser outros. Que, mesmo dentro da gigantesca tenda da maioria, já nem todos comem e calam. Mas essa é a realidade que só não vê quem não quer. Por mais ameaças ridículas e muito graves que venham da Quinta Vigia, através de eleitos ou de funcionários, a realidade é outra. As coisas, caso não tenham percebido, mudaram. E não foi pouco. Só no último ano, foram várias as vezes em que esta gente saiu à rua. Alguns terão respondido aos apelos dos directórios sindicais ou partidários, mas fizeram-no com a mesma legitimidade dos que protestaram livremente, ou dos que aplaudem com vigor tudo o que sai da maioria. O que parece extraordinário é que quem se refere à “gente que berra” não se veja ao espelho. Que não tenha a decência de reconhecer que a gente berra porque o governo erra. E como tem errado quem nos tem conduzido até este precipício! É certo que não se pode esperar, de quem recebe dois ordenados por mês, muita sensibilidade para essa coisa chata de meter a mão ao bolso e encontrar moedas pretas. Nem se pode exigir de quem tem direito a carro com tudo pago, ajudas de custo, viagens sem custo, estadias oferecidas e comidas de borla o dia todo, os dias todos, conheça o que é ter que pagar alguma coisa. Mas é justo esperar que quem governa saiba em que condição vivem os remediados, os pobres, os desempregados, enfim, os desgovernados. Seria tudo mais fácil se quem manda percebesse que entre os que gritam palavras de ordem e de protesto também são cada vez mais os que gritam de fome! Sim, essa palavra proibida e odiada entrou em força na Madeira. A terra do povo superior agacha-se agora perante outras palavras duras como pobreza, míngua, falta, desemprego, emigração, cantinas sociais, cabazes de comida, banco alimentar, peditórios. Tudo palavras conhecidas de quem se vê cada vez mais aflito e a quem apenas resta o grito da revolta para tentar ser ouvido pelos que se acomodam sob o ruído silencioso, traiçoeiro e manhoso de alguns gabinetes públicos. E é bom lembrar que se há “gente que berra” é também porque o governo erra.