Não me agrada a sociedade amorfa. Da crítica de café e das redes sociais. O ‘aqui-del-rei’ chorado mas pouco sofrido. O ‘ai jesus’ de que quem acha que os seus problemas são sempre maiores dos que os dos outros e para quem a crítica e o apontar de dedo já são condição 'sine qua non' da própria existência.

Embora sejamos todos um bocadinho assim. Os portugueses mais ainda, com o fado que carregam às costas, mas que está entranhado na pele. É mais fácil o lamento no teclado de um computador do que a coragem de lutar por uma mudança. Não há dúvidas.

Sempre me fez confusão o conformismo que tem na Madeira o seu expoente máximo. “O que é que se vai fazer, é assim”, lamenta-se.

Mas assim como me desagrada a apatia, também me incomoda o bota abaixo. Os que se movem não se sabe bem a troco de quê. Será que os que taparam o rosto para atirar pedras contra a polícia horas a fio votaram? O que os move? Que ideias têm para o país e para a sociedade?

A democracia sempre foi alimentada por gente que não teve pejo nem medo de dizer “não, não vou por aí”, quando o mais confortável seria seguir a multidão conforme os ventos e marés e no fim escolher o lado que ganha. Mas estas pessoas que se ergueram contra o instituído sempre tiveram um rumo, um projecto. Não se derrubou a ditadura por derrubar. Foi um caminho até à liberdade, por se acreditar. Um processo com erros, como os há sempre nesta condição humana que é nossa.

Não sou contra os que se levantam para defender o que acreditam, antes pelo contrário. Estive na manifestação de 15 de Setembro. Não por ser contra a ‘troika’, porque não se pode ser contra quem nos empresta dinheiro. Mas pode-se e deve-se criticar os que aproveitam o momento de fraqueza alheia para pedir contrapartidas impossíveis, paga com suor e lágrimas de quem menos pode.

Não saí à rua, com milhares, por ser contra as instituições democráticas, mas por achar que a democracia não se esgota no voto, e que as pessoas devem mandar os recados que têm de mandar a quem os governa. Mas tenho dificuldade em ver a mensagem de quem vai para a escadaria da Assembleia da República atirar pedras aos polícias. É como se nos estivéssemos a apedrejar a nós próprios. E temo que esta luta violenta sirva apenas para camuflar a luta diária de tantas famílias, que fazem das tripas coração, para mandar os filhos para a escola. Às vezes sem refeição alguma no estômago. De gente que até tinha razões para gritar junto à Assembleia até lhe faltar a voz, mas que ficou em casa por não ter dinheiro sequer para o bilhete de autocarro ou metro. Ou foi trabalhar porque para eles um dia de greve é um luxo.

Não é bom os que se queixam de tudo e não lutam por nada, mas também é mau os que fazem da luta um modo de vida por coisa nenhuma. Que em última instância os leva ao Facebook para se queixarem da repressão da polícia.