O Norte da Ilha, com mais incidência na Ribeira da Janela, Seixal, São Vicente e Faial, foi muito castigado pela intempérie, especialmente queda de chuva durante quarenta e oito horas seguidas, para além de outras chuvadas mais intercaladas com períodos menos molhados, mas que não foram suficientes para escoar as águas dos terrenos. Deu-se a saturação dos terrenos e a escorrência fez aumentar o caudal de alguns ribeiros, que infelizmente não estavam preparados para isso. Havia muita lenha dentro dos leitos desses ribeiros, mais a que foi arrastada pelas próprias águas, muita oriunda de pinheiros secos devido aos nemátodos, mato e silvados que começaram a formar os diques ou balsas de água, até que o primeiro rebentou, estabelecendo-se uma cadeia de pequenos diques que foram rebentando…A água veio de repente devido à junção dessa água toda e levou tudo o que havia à sua frente, entupiu os ribeiros e galgou para os terrenos vizinhos, arrastando casas ou partes , deixando um rasto de destruição à sua passagem… Pensa-se também, que nalgumas zonas a abertura dos tuneis com excessos de "fogo", fez aluir as montanhas, que mais cedo ou mais tarde provocarão sempre derrocadas…isto porque as paredes suportaram sempre, durante séculos, toda a água , mas agora vieram também algumas quebradas, em locais que não era normal existirem. Sem dúvida que os grandes estragos foram provocados pelas derrocadas, arrastando muitos troncos e raízes de árvores seculares e, que para abrirem passagens levavam tudo à sua frente. Por outro lado os pedregulhos que se desprenderam da montanha, alguns de tamanho muito grande, ajudaram a destruir muros de suporte de pedra seca, como era hábito fazer-se por aquelas zonas. Talvez esta seja a causa da maior destruição, assim como a não limpeza dos ribeiros. Locais sem acesso automóvel, mas que agora permitem a entrada de máquinas para repor os socalcos, aproveitando os pedregulhos que por lá ficaram espalhados. Para além da parte patrimonial, houve os prejuízos das chamadas benfeitorias (paredes, vinhas, espaldeiras e latadas, sistemas de rega), e há, também a parte de acessos, pois lugares há que dificilmente se chega. Deveriam aproveitar para alargar as veredas, onde for possível, a pensar em futuros acessos a máquinas e outros meios de transporte. Quanto à vinha, seus suportes, latadas ou espaldeiras, assim como sistemas de rega, deveriam permitir que os agricultores afectados pudessem apresentar projectos de reestruturação, aproveitando para proceder à plantação de castas tradicionais para vinho Madeira ou para vinho de mesa, com uma majoração nos valores a receber. Freguesias houve que ficaram praticamente seis dias sem acesso, impedindo, por sua vez o acesso a outras. Abrir das 12 às 13horas, não era solução, pois não dava tempo para servir um almoço. Não tinha que tirar mais duas horas, pelo menos, prolongando-se o período de trabalho antes e depois da hora de começo dos trabalhos e de abertura ao público da estrada, para que os restaurantes do concelho pudessem servir alguns almoços. Ouvimos alguns proprietários de restauração e de lojas de artesanato a se queixarem e lembrarem-se de que, quando foi para inaugurar a chamada Via Expresso, trabalham continuamente, ou seja 24 horas por dia!!! Se quem manda soubesse o que era ficar isolado, sem pão fresco, sem poder ir à farmácia comprar medicamentos, já com falta de produtos de supermercado, nomeadamente gaz, talvez a reabertura se tivesse dado muito mais rapidamente. Recordo-me de noutras situações em que houve necessidade de interromper a estrada, era esse o horário, que sugerimos, de interrupção. Se é certo que muitas vezes são os erros dos homens que originam o surgimento destas catástrofes, aparentemente naturais, mas difíceis de contabilizar, não podemos aceitar os erros sistemáticos quer no antes, quer no depois. Como me dizia alguém, se quisermos cortar um pau de lenha de uma árvore que caiu dentro de um ribeiro, saltam-nos logo em cima e mais tarde acabamos por sermos nós a pagar e não aqueles que não permitiram a limpeza, nem tão pouco a fizeram. Os ribeiros mais problemáticos da Madeira, estão identificados, em cada freguesia, porque razão não se trata da sua limpeza? Porque não se arrancam os troncos dos pinheiros mortos, assim como de outras árvores? Porque razão há de aplicar sempre aquela máxima popular: " depois de roubado, trancas à porta".

Duarte Caldeira Ferreira