Já há vários anos que a Assembleia Legislativa da Madeira manda pagar quantias escandalosas aos partidos que lá se movimentam. E é verdade que aquela fartura de euros chega a todos os que lá se refugiaram – depois de se submeterem a eleições –, numa altura em que, cá fora, as famílias sofrem a bom sofrer para pagar o passe para o autocarro, o almoço e os livros das crianças na escola, os medicamentos nas farmácias, os atendimentos no hospital. Como se isso não bastasse, as compras indispensáveis no supermercado dispararam por causa do IVA, os combustíveis sobem em quatro semanas e descem em apenas uma, o IRS dos míseros salários agrava-se vertiginosamente. Todos somos obrigados a contribuir mais, mesmo recebendo muito menos. Todos, menos os partidos da nossa Região. E esses partidos são pessoas, são dirigentes que todos nós conhecemos. O dinheiro que subtraem ao erário público foi aprovado por eles e é gasto por eles, em coisas que só a eles interessam, muitas vezes com essa coincidência espantosa do emissor do cheque ser o mesmo que o recebe, mesmo que a empresa ou a factura ostentem outro nome. Convém clarificar bem o que estamos a falar: há uns bons anos, quando o PSD punha e dispunha de tudo o que mexia na Madeira, o seu grupo parlamentar propôs um aumento escandaloso das verbas que o Parlamento atribuía a si próprio, para financiar os partidos. Foi definido um valor vergonhoso por cada deputado eleito, pelo que quanto mais deputados, maior é a fatia do orçamento dos nossos impostos. Lembro-me bem do que disse o nosso Pilatos sobre essa jogada vergonhosa, qualquer coisa como “não sou eu que mando no partido”. Extraordinário! Vieram novas eleições regionais e as vicissitudes dos resultados desviaram verbas de uns partidos para outros. Mas o ‘bolo’ manteve-se igual. Eles continuam a rir de nós. Na altura, alguns deputados quiseram fazer crer que os partidos precisavam dessas verbas para tratar de eleições e pagar actividades imprescindíveis à sociedade. Eram ainda os últimos anos das ‘vacas gordas’, com as famosas obras que geravam inaugurações, que por sua vez asseguravam vitórias nas eleições. Acontece que, agora, os contribuintes madeirenses estão autenticamente depenados. As empresas desesperam, o desemprego sobe em flecha, os impostos martirizam-nos, o Governo Regional assinou um Plano de Ajustamento que nos penaliza em triplicado. Há cortes por todo o lado. Mesmo assim, o partido da maioria madeirense veio dizer ontem que não reduz um tostão ao ‘jackpot’ que aprovou a pensar em si próprio, nos seus dirigentes e nas suas megalomanias. Repare-se neste paradoxo: todos somos obrigados a cortar no que não temos. Os partidos, que nos ‘roubam’ legalmente via Parlamento, não podem reduzir um tostão! Estou absolutamente convencido que as manifestações – mesmo as dos últimos dias – vêm sempre com um atraso no tempo, sempre desfasadas em relação àquilo que é possível fazer. Por isso têm o seu quê de ridículo. Ora, cá está um caso concreto, em que é possível protestar em tempo útil: ontem ficámos a saber que o nosso Parlamento recusou reduzir o dinheiro que nos ‘roubam’ legalmente; é nesta altura que devemos manifestar-nos e obrigar os nossos representantes a zelarem melhor pelos nossos interesses. De que serve desferir frases tontas contra a senhora Merkel ou contra o Primeiro-ministro que está lá no outro lado, se continuamos a bater palmas e a fazer vénias a quem goza com a nossa cara, aqui mesmo à nossa frente? Porventura sabemos para onde vão aqueles 5,3 milhões por ano? E ninguém se manifesta contra isso? Vamos esperar mais uma legislatura – quatro longos anos! – para mudar esta pouca vergonha? Para adocicar esta nota amarga, deixo outra em tom bem diferente e que considero um pequeno sinal de esperança, porventura já esquecido por muita gente: pelo menos um dos políticos com futuro nesta Região – Manuel António Correia – já anunciou que, se chegar à liderança do partido, compromete-se a reduzir o ‘jackpot’ da Assembleia Legislativa da Madeira, bem como o número de deputados que lá se sentam. É um princípio. Um bom princípio.