
Sem dúvida que há “outras formas dos cidadãos manifestarem a sua opinião e a sua liberdade de expressão” sem que tenham de paralisar a economia, que é sempre uma grande chatice. As ‘manifs’ são bem mais agradáveis de se ver pela televisão, qual ‘reality show’, em que não faltam cassetetes a rachar cabeças e polícias ávidos por descarregar, a resignação pelas carreiras congeladas, sobre alguém que esteja mais à mão de semear do que o mordomo do palácio de São Bento.
Não faltam empurrões, detenções e outras confusões que encostam a ‘Casa dos Segredos’ a um canto. Ao fim ao cabo, entretêm quem está no poder. E quem governa não perde tempo a enaltecer, de sorriso a fugir para o escárnio, que é um grande sinal de “maturidade democrática” do povo português. Noutros tempos, em que meia nação policiava a outra metade, Marcelo Caetano falava num país de brandos costumes para anestesiar a ousadia dos destemidos. Hoje, o país está em ebulição com dezenas de milhares de manifestantes a protestar nas ruas e os novos mestres de propaganda procuram desencorajar os críticos aplaudindo a inconsequente manifestação livre e espontânea, e, se for preciso, até lhes descontam o dia no ordenado aguardando, enfim, que as palavras de ordem inscritas nos cartazes morram após 24 horas de vida nas páginas dos jornais. Isto para que, no final (ontem), se estenda uma passadeira vermelha à chanceler alemã, querendo mostrar que somos mesmo um país de otários e de vadios convictos que agradecem, num beija-mão, os 1,9 milhões de euros que Angela Merkel leva para Deutschland por dia, em capital para amortização de dívida e de juros contraídos.
Conceição Estudante tem razão em estar preocupada com a “paralisação da criação de riqueza por um dia” e com os impactos da greve geral de hoje. A paragem dos transportes aéreos e marítimos provocam sempre um maremoto no turismo, no comércio, nas exportações e um efeito dominó na economia regional. Só é pena que nunca mostrasse preocupação com a fonte do problema ou, simplesmente, com os despedimentos na hotelaria. A greve não é um princípio nem um fim. É apenas um meio. E um sintoma de um mal maior. É como o dengue: a culpa não é do vírus. Nem mesmo do seu vector, do mosquito que por aí anda a picar. É de quem propiciou o desenvolvimento do insecto que agora coloniza a Madeira. E, se calhar, todos nós temos uma quota de culpa nisso. É como na vida politica. Quem nunca se arrependeu da cruz que meteu no boletim de voto? Na verdade, “o povo não é prejudicado pela greve, mas simplesmente o povo está em greve porque está a ser prejudicado”. A greve é, tal como as manifestações, uma lição de democracia. E se alguém quiser discutir patriotismo que antes perceba que quem está a entravar a economia não são as greves paralisadoras. São, antes, as medidas paralisantes.