Pedro Melvill de Araújo "...as crises comerciais que, na sua recorrência periódica, põem em questão, cada vez mais ameaçadoramente, a existência de toda a sociedade. Nas crises comerciais é regularmente aniquilada uma grande parte não só dos produtos fabricados como das forças produtivas já criadas. Nas crises irrompe uma epidemia social que teria parecido um contra-senso a todas as épocas anteriores - a epidemia da sobreprodução. A sociedade vê-se de repente retransportada a um estado de momentânea barbárie; parece-lhe que uma fome, uma guerra de aniquilação universal lhe cortaram todos os meios de subsistência; a indústria, o comércio, parecem aniquilados. E porquê? Porque ela possui demasiada civilização, demasiados meios de vida, demasiada indústria, demasiado comércio. As forças produtivas que estão à sua disposição já não servem para promoção das relações de propriedade E como triunfam os detentores do capital das crises? Por um lado, pela aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de antigos mercados. De que modo, então? Preparando crises mais omnilaterais e mais poderosas, e diminuindo os meios de prevenir as crises Na mesma medida em o capital se desenvolve, nessa mesma medida desenvolve-se uma classe de operários modernos, os quais só vivem enquanto encontram trabalho e só encontram trabalho enquanto o seu trabalho aumenta o capital. Estes operários, que têm de se vender à peça, são uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio, e estão, por isso, igualmente expostos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as oscilações do mercado. Mas será que o trabalho assalariado cria propriedade? De modo nenhum. Cria o capital, i. é, a propriedade que explora o trabalho assalariado, que só pode multiplicar-se na condição de gerar novo trabalho assalariado para de novo o explorar. A propriedade move-se na oposição de capital e trabalho assalariado. Consideremos ambos os lados desta oposição. Ser capitalista significa ocupar na produção uma posição não só puramente pessoal, mas social. O capital é um produto comunitário e pode apenas ser posto em movimento por uma actividade comum de muitos membros, em última instância apenas pela actividade comum de todos os membros da sociedade. O capital não é, portanto, um poder pessoal, é um poder social." O texto atrás não é da minha autoria, mas com as devidas adaptações no tempo e no espaço, mantém uma actualidade que poucos esperariam. Não vou dizer o seu autor ou autores, mas refiro que foi publicado há mais de cem anos. Quem já o leu, reconhecê-lo-á, quem nunca o leu, fica com a sua actualidade. E, sendo - agora a reflexão é minha - o capital um poder social, deveria caber às sociedades o seu controlo efectivo. Muito se tem escrito e discutido acerca das origens da presente crise, mas pouco se tem falado dos detentores do poder real, i.é, os detentores do capital. Pessoas sem rosto que, através de manobras mais ou menos obscuras, como a criação das agências de rating e outras, controlam o poder civil, toda a sociedade e os seus meios de produção. Enquanto o poder civil não puser um rosto nesses grandes manipuladores internacionais e não controlar, com regras bem definidas, toda a sua actuação, o seu poder crescerá até o rebentar de uma revolução social, com consequências imprevisíveis, como são sempre que as massas insatisfeitas se revoltam contra os poderes instituídos. Aí, já será tarde para soluções mais ou menos pacíficas, e seremos todos a sofrer as consequências da falta de visão, ou de coragem dos políticos actuais. Não sou político, e não o sendo, tenho pena que os políticos actuais não estudem um pouco de história, para poderem ver para onde estão a levar o mundo como o conhecemos. Que Deus nos proteja.