José Santos Numa recente participação no programa "Última Edição" do canal de televisão SIC Notícias (06/11/2012), no qual se debatiam as causas e as consequências da actual situação de crise que afecta o nosso País, a Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, Isabel Jonet, declarou que os Portugueses vivem muito acima das suas possibilidades e que, por isso, terão que aprender a viver com menos, chegando mesmo a afirmar que o Povo Português terá que empobrecer muito e ter que viver mais pobre. Não é a primeira vez que Isabel Jonet revela tamanha insensibilidade e uma aviltante falta de respeito perante o drama que afecta as vidas de milhões de Portugueses. De facto, é prática frequente, enquanto Presidente do Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, e da Federação Europeia dos Bancos Alimentares Contra a Fome, omitir as principais causas que se traduziram, num curto espaço de tempo, num aumento brutal e constante do empobrecimento da população portuguesa, europeia e mundial, focando-se apenas num discurso que advoga o conformismo e a fatalidade do momento e das circunstâncias (curiosamente, se apelasse igualmente à aceitação submissa e cega da crescente austeridade, seria um perfeito decalque dos discursos do actual Governo PSD/CDS-PP; enfim, coincidências...). E as suas recentes declarações demonstram que ou está completamente alheia à verdadeira dimensão da pobreza em Portugal, ou então revela aquilo que realmente parece mover a agenda de determinados grupos no nosso País: a substituição do "Estado Social" pelo "Estado de Caridade", ou melhor, "de Caridadezinha". As infelizes afirmações de Isabel Jonet trazem-nos à memória outros tempos, que alguns tentam branquear ao mesmo tempo que os recordam com indisfarçável nostalgia doentia. São palavras que emanam o bafio nauseabundo e insuportável que nos remete para os tempos em que as "senhoras bem", as "madamas" dos torneios de bridge e canasta e dos chás vespertinos, se dedicavam à caridadezinha serôdia para sacudir o acomodado torpor do seu dolce fare niente, e que até se davam ao desplante de ralhar aos pobres por serem pobres e quase lhes impunham as formas de gerir as esmolas que lhes atiravam às mãos. As declarações que o Povo Português ouviu da boca de Isabel Jonet no passado dia 06/11/2012 revelam o mesmo desdém, nojo, ligeireza e pena com que "se praticava o Bem" nos tempos do regime fascista de 1926-1974. São palavras graves que mancham a imagem, a dignidade, o sentido de missão e a entrega desinteressada, valores que caracterizam os milhares de voluntários que tornam o Banco Alimentar Contra a Fome (ressalve-se: a instituição dirigida pela própria Isabel Jonet) uma verdadeira "bóia de salvação" para muitos milhares de famílias em Portugal que enfrentam a fome, a miséria, a exclusão social e a desresponsabilização por parte do Estado. São igualmente afirmações ofensivas para o sentido de solidariedade que norteia todo e qualquer cidadão que apoie as inúmeras causas e acções que o Banco Alimentar Contra a Fome desenvolve. Por isso, Isabel Jonet, um conselho: mais vale deixar cair a máscara de vez e parar com essa triste e estafada pantominice da caridadezinha, e rumar logo a um cargo no Governo, pois eles cada vez mais precisam de gente como você.