Nada pior que uma pessoa enganar-se quanto ao sentido da História. Esta é a conclusão que se poderá tirar das eleições no PSD -M que Jardim "ganhou" por 83 votos de diferença sobre Miguel Albuquerque. Digo "ganhou" porque, de facto, Jardim obteve uma enorme derrota que representará, inquestionavelmente, em termos de futuro imediato, o fim do Jardinismo. Mais do que o fim de um ciclo, o resultado destas eleições é mais grave para Alberto João Jardim que a vitória tangencial obtida nas últimas eleições regionais na Madeira. Se em Outubro tinha perdido mais de metade da confiança dos madeirenses, em votos expressos, agora, com estas eleições, perdeu metade do apoio dos seus correligionários. Dura realidade para quem se convenceu que o seu poder era ilimitado no tempo. Alberto João Jardim mostrou ignorar que um político tem de compreender a sua época, a evolução das ideias, o sentido dos acontecimentos e as respectivas consequências. A teimosia egoísta e narcísica levou-o a negligenciar as opiniões e a demostração de força no poder instituído. O grande risco que quis passar foi o de se fechar, de ser surdo e cego, de não entender e, por consequência, não ser compreendido e perder a partida, como aconteceu. A tentação de fixar a realidade, de qualificar de "defesa dos valores" o que apenas é submissão ao status quo, de se apresentar como porta-voz do imutável quando tudo evolui, é a melhor prova da incompreensão do mundo e a pior forma de demagogia. O político que se deixa levar por isto pagará, cedo ou tarde, o respectivo preço. Foi o que aconteceu a Alberto João. A máscara caiu e os madeirenses passaram a ver a verdade com toda a clareza. Estamos agora, perante um fim de ciclo e uma necessidade de renovação desejada pelos cidadãos e sempre ignorada ou rejeitada por Alberto João Jardim. Ao longo de 34 anos, naquela que é uma das mais longas carreiras políticas de dirigentes democraticamente eleitos em todo o mundo, o Presidente do Governo Regional construiu uma personagem nem sempre compreendida e nem sempre aceite porque nunca aceitou, antes pelo contrário, que a recusa da demagogia é o primeiro progresso da moral na História. No exercício dos seus mandatos esqueceu, por vezes inconscientemente, a necessidade de se impor aos que o rodeiam, sem duvidar de si próprio e da sua capacidade política. Durante todos estes anos, Alberto João Jardim afastou personalidades com prestígio e eliminou aqueles cujo talento podiam fazer-lhe sombra, mas, procedendo assim, ficou mais pobre, é o sintoma da eternidade da alma; mais grave, é um enfraquecimento e uma forma de multiplicar os partidários desiludidos e de os transformar em adversários. Ninguém sabe o que o futuro reserva: mais vale estar rodeado de pessoas fortes e capazes do que de cortesões incompetentes e servis. De que serve fechar-se num gueto de medíocres, muito fáceis de dominar, mas impossíveis de utilizar. Alberto João Jardim mostrou ao longo destes tempos que não é um político prisioneiro de sentimentos duradouros e não hesitou esquecer os serviços prestados. Para consolidar uma autoridade que parecia forte preferia dar a imagem de duro. Mas tudo não passava de imagem, veja-se as justificações que encontrou para este último resultado eleitoral. Os seus opositores tinham sido até agora os marginalizados do poder. Esta é a verdade dos não crentes. O que é próprio das sociedades livres e democráticas é o livre debate de ideias. A crítica não pode deixar de ser livre. Nem há que temer esse debate e essa crítica porque às ideias pode sempre responder-se com outras ideias e a Verdade impõe-se por si, pela luz e força que lhe são intrínsecas. Também, não podemos esquecer, é própria das sociedades livres e democráticas a livre crítica das acções e comportamentos políticos, mas tal não significa que a honra e dignidade pessoal, dos actores políticos possam ser espezinhadas. Veja-se como decorreu, a última campanha para a liderança para o PSD - M. Às ideias pode responder-se com outras ideias e assim se gere o diálogo e o debate. Os insultos já saem fora do diálogo e do debate racional. Surge sempre a tentação de responder aos insultos com outros insultos e assim se gere a violência verbal, que nada tem a ver com o debate que é próprio das sociedades livres e democráticas. Os fracassos políticos têm origem nas esperanças traídas. Nada está garantido para toda a vida. Mesmo que conseguissem ser fiéis às suas promessas os políticos não são eternos: a opinião pública cansa-se ao mesmo tempo que o poder esgota a imaginação de quem o detém, que passa a não saber responder a novas aspirações. O poder tem limites, nem tudo está ao seu alcance. A História recente da Madeira prova que a demagogia, a ocultação, a incompetência e a impreparação não dão resposta aos desafios do nosso tempo. "O gosto pela exibição das aparências exprime um culto grosseiro de si mesmo". Alberto João Jardim, nestes últimos anos, foi uma espécie de D. Quixote, sem alma e sem poder, onde os factos são o contrário dos discursos e não correspondem às intenções que apregoou. A situação na Região, hoje, é sinal de tudo isto, que por ser dramática, socialmente dramática, a todos nos desilude. Salva-nos a ideia, aqui comprovada, que a maturidade política está no povo, não está nas elites.

José Roque Martins