O jornal do Governo e da Diocese, mas pago por todos nós, trazia esta semana mais uma das suas pérolas. Num artigo de opinião, o cronista escrevia esta coisa: “O ‘JM’ ganhou as eleições do PSD porque é descrito por gente desmiolada, como sendo um “pasquim” que apoiou a candidatura de Alberto João Jardim. É certo que apoiou Jardim. Mas e daí? O Governo Regional não é dono da maioria do capital deste jornal?” Não, sr. Gilberto. Neste caso, o Governo não é dono de coisa nenhuma. É administrador da coisa pública! E mau administrador, como está bom de ver. Li aquilo umas duas ou três vezes. E pensei: onde já vai o descaramento! Ao escrever isto, Gilberto Teixeira põe preto no branco o que para alguns ainda andava só no cinzento. Afirma claramente que o Jornal da Madeira, pago por todos os contribuintes madeirenses, apoiou a candidatura de apenas um madeirense. Mais: considera o articulista que isso é normal. “E daí?” pergunta Teixeira. E Teixeira responde: “O Governo Regional não é dono da maioria do capital deste jornal?”. Ou seja: há algum mal em que o Jornal do Governo e da Igreja apoie um candidato partidário contra outro. Para Teixeira, para o Governo e para uma certa Igreja conduzida no conforto da escuridão, é claro que não há mal nenhum. Está tudo certo, tudo normal. Mas não está. Voltei a ler esta aberração e imaginei, noutro cenário, ver o seguinte escrito de Gilberto Teixeira, se este fosse avençado da RTP: “A RTP ganhou as eleições do PSD porque é descrita por gente desmiolada, como sendo uma “Casa dos Segredos” que apoiou a candidatura de Passos Coelho contra Paulo Rangel. É certo que apoiou Passos Coelho. Mas e daí? O Governo da República não é dono da totalidade do capital desta televisão?”. Aposto que num hipotético caso destes até o mais católico Gilberto deste País ficaria arrepiado e com os cabelos em pé. No mínimo, reagiria como reagiu Costa Neves perante as obras na baía do Funchal: “Ninguém é responsabilizado, ninguém é demitido, ninguém é preso”? Já agora, não resisto a perguntar ao senhor bispo do Funchal o que pensa deste assunto. Acha também D. António Carrilho Cavaco que é normal o jornal onde se passeia tantas vezes usar o dinheiro de todos nós, pobres, remediados e ricos, para um jogo partidário? Claro que o bispo não vai responder. Nunca responde. Mas, como se aprende nos bancos da igreja, um dia há de responder pelo que fez, pelo que não fez e pelo que fingiu não fazer. Deve ser de atitudes destas que o catecismo fala quando ensina que há pecados por pensamentos, palavras, actos e omissões. Numa democracia a sério esta trapalhada, no mínimo, daria demissão ou resignação. Aqui apenas causa uma ténue indignação. Imagino que os católicos mais puritanos dirão que é heresia isto que escrevo. A esses respondo com a última frase da eucaristia dominical: “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe”.