Quando se fala de uma orquestra, estamos a falar de um conjunto de pessoas dotadas e com formação musical adequada para, entre outras coisas se entregarem á música de forma mais ou menos profissional. Digamos que se trata de uma rede especial ou especializada, qual elite de astros, alguns deles até venerados e em regra protegidos pela redoma das competências. Porém, não se pense que as orquestras podem viver assim sobranceiramente e alheias a tudo o que as rodeia. Dependem em toda a linha de ligações a redes de menores competências. Dependem da música popular, das bandas, das filarmónicas, das sociedades musicais, dos grupos folclóricos, dos coros enfim, e tudo isto pela mesma razão pela qual também as universidades existem se existirem as escolas primárias. A música sempre uniu as pessoas. A alma de um povo vê-se pela sua música. As sociedades quando entregues a si próprias encontram sempre na música o elixir para a sua felicidade. Quando em sofrimento o refugio musical torna-se quase obrigatório. As apregoadas redes sociais tão em voga, não são descoberta recente. Sempre existiram e a música tradicional é disso um perfeito exemplo. Um grupo folclórico é uma rede. Simples, rigorosa, barata e funcional. Meia dúzia de instrumentos de corda, outros tantos de percussão, um par de solistas, uma dúzia de vozes em coro, cinco ou seis pares de dançarinos, porta bandeira, apresentador e temos aqui trinta e tal pessoas ocupadas e felizes e de tão felizes sempre que actuam transmitem essa felicidade a tantos outros. Familiares, amigos e em especial os seus descendentes beneficiarão deste ambiente musical e dele sairão com certeza os tais músicos escolhidos a dedo, de que tanto precisam as tais orquestras. Se for este o caminho, um dia poderemos sonhar com uma Orquestra Sinfónica. Acenar com milhões e vir a público prometer isto e aquilo, faz lembrar aquele político que em plena campanha e a plenos pulmões prometia fazer uma ponte e, assim que advertido pelo assessor de que ali não havia rio, segurou de novo o microfone e ainda mais empolgado anunciou, vou construir aqui um rio! E correram rios de dinheiro. Alguns transbordaram. Veio a seca e o futebol foi o primeiro dos últimos a saber, como agora se prova. Prova-se e a madeira nova comprova. Está aí a caminho da cova.
Eurico Martins, Orquestra de Bandolins da Madeira