"É a medo que escrevo. A medo penso, A medo sofro e empreendo e calo. A medo peso os termos quando falo. A medo me renego, me convenço. A medo amo. A medo me pertenço. A medo repouso no intervalo De outros medos. A medo é que resvalo O corpo escrutador, inquieto, tenso. A medo durmo. A medo acordo. A medo Invento. A medo passo, a medo fico. A medo meço o pobre, meço o rico. A medo guardo confissão, segredo, Dúvida, fé. A medo. A medo tudo. Que já me querem cego, surdo e mudo". José Cutileiro, «Os Medos» Comecei a escrever esta crónica com um tipo de letra que nunca utilizara "DejaVU Sans Light". A designação do formato vinha ao encontro do meu enfado e quebranto, talvez tristeza profunda, porque de fado insular me sinto cheia neste dia cinzento de 30 de Outubro, com Novembro à espreita, onde a água brota de novo pelas ribeiras bravas desenterrando angústias não resolvidas. Estranho. Não sinto medo do mar, nem deste barrento líquido espesso que cai do alto da montanha e que engorda a baía castanha aterrada com navios impedidos de atracar. É nesta humidade tropical mordida pela dengue, pelas quebradas eminentes, e discursos imaginários que alimentam cada vez mais as ansiedades colectivas que transbordam dos olhares, sem soluções à vista, que assim vivemos. Enquanto o mundo pula e avança, ficamos parados como estátuas de sal vendo as pedras rolarem sobre as nossas cabeças e o chão falso abrir-se jogando-nos para um alçapão sem fundo. Ficam os estaleiros da incompetência, os asnos que teimam seguir um único rumo (aquele que pessoalmente lhes interessa) e que as vendas desbotadas, gastas pelo tempo que passa e passou, lhes limita os horizontes. Assim querem. Assim têm. Vão por aí, por onde entenderem. Abiquem-se. Mas vão sozinhos. Eu nunca acreditei na fábula do lobo mau. Para mim, o lobo mau era um pobre diabo, tontinho, que se disfarçava para enganar os incautos e que acabou com a barriga esventrada pela estupidez e pelo entendiante perfil do rei nu. Não tenho medo da ditadura dos homens, nem tremo quando a arrogância se espalha nos comportamentos de semideuses e nas ameaças veladas ou directas porque nada, mas mesmo nada, é eterno. A liberdade de pensamento e de opinião tem muito mais força do que os ataques primários de selvajaria verbal, da miragem de um poder infinito. As crenças de infinitude são perversas pois toldam a consciência de que os seres vivos são finitos, ou seja, todos morremos, todos temos um final. O hoje já passou. E o passado é tão útil como um trapo que de vez quando limpa as memórias embaçadas, clareando-as, mas quase sempre distorcidas. Sendo impossível revivê-las, mitificamos os nossos heróis ou símbolos como se fossemos parte de um Canto, invocação ou inspiração de um poema. A letra com que comecei a escrever a crónica acabou. Aqui. Mudei para o tipo "DejaVu Serif Condensed". Mas, pergunto-me, porquê esta minha decisão (para alguns sem importância) se o formato está pré-definido pelo jornal que publica o texto? Porque sim, porque sou eu que escolho a letra que sou. E porque não é a medo que escrevo, nem é a medo que penso, sofro, amo, acordo ou me inquieto.

Lília Bernardes