Um exercício simples para uma proposta complexa. Responda o Leitor, com base naquilo que sabe tão bem quanto eu. E se sobrar pachorra, responda também ao 'post scriptum' Hoje gostaria de propor um exercício simples: imagine o Leitor que tinha muita disponibilidade financeira e que lhe aparecia à frente o presidente de um governo de uma ilha bonita, pedindo que lhe emprestasse uma quantia avultada de dinheiro. Antes de perguntar ao Leitor se arriscava emprestar o seu dinheiro, recordo-lhe uma série de aspectos a considerar antes de consumar o empréstimo: - o dinheiro solicitado era para cobrir dívidas acumuladas; - algumas dessas dívidas não eram oficiais, pois resultavam de habilidades para contornar formalidades legais; - ainda não estava apurado o valor final de algumas das obras em dívida, estando esse apuramento nas mãos de tribunais arbitrais constituídos pelos próprios construtores e representantes do partido que governava a ilha há mais de 3 décadas; - as primeiras obras serviram, de facto, para reduzir o atraso estrutural que havia na ilha; - depois comprovou-se que algumas das obras em dívida eram absolutamente desnecessárias face à reduzida dimensão da ilha bonita e às perspectivas reais de crescimento de todas as áreas económicas; - nada garantia que o empréstimo fosse aplicado na finalidade para a qual foi solicitado, porque o presidente da ilha insistia em fazer mais obras; - o presidente da ilha bonita assumia descaradamente que com obras fazia inaugurações, e que com inaugurações ganhava eleições atrás de eleições; - antes de acordar as condições do pagamento do empréstimo, o presidente queria a disponibilização urgente do dinheiro; - o presidente da ilha recusava dar quaisquer garantias de pagamento, pois considerava que emprestar dinheiro era uma obrigação da outra parte; - face ao avolumar das reclamações dos credores do governo da ilha, o presidente ausentava-se durante semanas e, no regresso, explicava que a culpa não era dele, mas de quem não queria emprestar o dinheiro de forma célere. A todas estas condicionantes, havia ainda que juntar o facto do presidente pedinte ser um brincalhão, useiro e vezeiro a contar anedotas sobre quem caía nas suas esparrelas, como acontecera com primeiros-ministros que financiaram as suas estratégias, só para que ele não abrisse a sua boca a chamar-lhes de ‘tontos’, ‘incompetentes’ e outras coisas irreproduzíveis. Houve também uma famosa e duradoira estratégia de gozar com a CEE, com relatórios oficiais a jurarem simultaneamente que a ilha era pobrezita – para receber fundos – e que era também das mais ricas – quando tocava à propaganda do regime. Até que lá nas Europas descobriram a tramoia... Agora sim, caro Leitor ficticiamente investido de funções financiadoras, você empenhava o seu dinheiro num empréstimo ao rei da ilha bonita? Post Scriptum - não resisto a propor um outro exercício suplementar: e se na ilha bonita os ilhéus aproveitassem uma oportunidade, dissessem “já chega” ao presidente e o mandassem cuidar dos netos e gozar as reformas, o Leitor financiador manteria a sua forma de encarar o empréstimo, o grau de exigência nas contrapartidas e a disponibilidade para ajudar a ilha num novo ciclo?

Um exercício simples para uma proposta complexa. Responda o Leitor, com base naquilo que sabe tão bem quanto eu. E se sobrar pachorra, responda também ao 'post scriptum'

Hoje gostaria de propor um exercício simples: imagine o Leitor que tinha muita disponibilidade financeira e que lhe aparecia à frente o presidente de um governo de uma ilha bonita, pedindo que lhe emprestasse uma quantia avultada de dinheiro.

Antes de perguntar ao Leitor se arriscava emprestar o seu dinheiro, recordo-lhe uma série de aspectos a considerar antes de consumar o empréstimo: - o dinheiro solicitado era para cobrir dívidas acumuladas; - algumas dessas dívidas não eram oficiais, pois resultavam de habilidades para contornar formalidades legais; - ainda não estava apurado o valor final de algumas das obras em dívida, estando esse apuramento nas mãos de tribunais arbitrais constituídos pelos próprios construtores e representantes do partido que governava a ilha há mais de 3 décadas; - as primeiras obras serviram, de facto, para reduzir o atraso estrutural que havia na ilha; - depois comprovou-se que algumas das obras em dívida eram absolutamente desnecessárias face à reduzida dimensão da ilha bonita e às perspectivas reais de crescimento de todas as áreas económicas; - nada garantia que o empréstimo fosse aplicado na finalidade para a qual foi solicitado, porque o presidente da ilha insistia em fazer mais obras; - o presidente da ilha bonita assumia descaradamente que com obras fazia inaugurações, e que com inaugurações ganhava eleições atrás de eleições; - antes de acordar as condições do pagamento do empréstimo, o presidente queria a disponibilização urgente do dinheiro; - o presidente da ilha recusava dar quaisquer garantias de pagamento, pois considerava que emprestar dinheiro era uma obrigação da outra parte; - face ao avolumar das reclamações dos credores do governo da ilha, o presidente ausentava-se durante semanas e, no regresso, explicava que a culpa não era dele, mas de quem não queria emprestar o dinheiro de forma célere.

A todas estas condicionantes, havia ainda que juntar o facto do presidente pedinte ser um brincalhão, useiro e vezeiro a contar anedotas sobre quem caía nas suas esparrelas, como acontecera com primeiros-ministros que financiaram as suas estratégias, só para que ele não abrisse a sua boca a chamar-lhes de ‘tontos’, ‘incompetentes’ e outras coisas irreproduzíveis. Houve também uma famosa e duradoira estratégia de gozar com a CEE, com relatórios oficiais a jurarem simultaneamente que a ilha era pobrezita – para receber fundos – e que era também das mais ricas – quando tocava à propaganda do regime. Até que lá nas Europas descobriram a tramoia...

Agora sim, caro Leitor ficticiamente investido de funções financiadoras, você empenhava o seu dinheiro num empréstimo ao rei da ilha bonita?

Post Scriptum - não resisto a propor um outro exercício suplementar: e se na ilha bonita os ilhéus aproveitassem uma oportunidade, dissessem “já chega” ao presidente e o mandassem cuidar dos netos e gozar as reformas, o Leitor financiador manteria a sua forma de encarar o empréstimo, o grau de exigência nas contrapartidas e a disponibilidade para ajudar a ilha num novo ciclo?