Em democracia, é de vidro frágil o laço de credibilidade e legitimidade que vincula dirigentes governativos e cidadãos, na medida em que a acção política prometida corresponde às expectativas criadas. Em apenas um ano de exercício do poder, é por demais evidente que se estilhaçou a confiança e o respeito do povo em relação a este governo, cuja praxis é um divórcio entre as promessas de equidade na distribuição dos sacrifícios e a governação em sentido contrário, defraudando expectativas retirando direitos da mais elementar justiça e pedra de toque da coesão social e mantendo privilégios aos mesmos de sempre. E "o melhor povo do mundo", "o melhor activo do país", perdidos o benefício da dúvida e da tolerância, transborda o seu protesto na praça, face à dimensão da insensibilidade, desumanidade e ignorância da realidade social do país, patente nas propostas de austeridade implementadas, sem qualquer efeito na melhoria económica. E passado o assustado recuo governativo em relação à TSU, provavelmente terá de voltar a manifestar a sua indignação, face à insistência governativa na estratégia de empobrecimento generalizado que o fleumático e robótico Ministro Gaspar oferece para o próximo ano. Mais do que repudiar "o aumento enorme de impostos", é preciso mostrar aos dirigentes políticos que em democracia, não se pode ganhar o voto dos cidadãos e depois governar contra eles: há que preservar a sua confiança, consolidar em cada decisão política a legitimidade ganha nas urnas, com medidas concertadas com organizações da sociedade civil. E este governo, cego e surdo à realidade, fiel a agendas obscuras, olimpicamente ignora acordos por si subscritos e vozes abalizadas que afirmam não ser este o caminho adequado para o futuro do país. O povo expressa o seu estado de alma, por uma terra madrasta que não tem lugar para os mais novos, para os filhos e netos da geração de Abril, a geração mais qualificada de sempre, condenados a partir em busca de meios de vida, comprometendo afectos e laços familiares, não fruto de uma legítima liberdade de escolha, mas tão só porque o país que os viu nascer, educou, qualificou e precisa da sua força criadora, os expulsa, por incompetência de governos de calendário eleitoral, conquista do poder e interesses de alguns. O povo grita pelo direito a ter esperança, dignidade, futuro e cidadania através do trabalho com direitos, o motor da coesão social e não quer os seus filhos em latitudes longínquas; quer os seus sonhos de volta, recusa esta via de destruição, retrocesso e humilhação de um país com 900 anos de História, hipotecado à usura internacional, condenado à extinção. Porque esta fabulosa geração de emigrantes que agora é compelida a abandonar o país para sobreviver, provavelmente não voltará nem mandará divisas como outrora. De desespero é o sentir dos que nesta Região de Autonomia hoje perdida, outrora pujante de arrogância, se veem submetidos ao duplo, senão triplo rigor da austeridade, obrigados a cumprir o nacional memorando da troika, o plano de resgate financeiro regional e os programas de empréstimo às autarquias falidas, como é o caso de Santa Cruz. Sabe-se de cidadãos que já só têm água em casa, já cortaram a electricidade, ou voltaram à casa dos pais… Sabe-se dos jovens economicamente dependentes dos pais reformados, uma inversão geracional, de serem os avós a sustentar filhos desempregados e netos estudantes. O que era uma das regiões mais ricas do país, um exemplo de sucesso e desenvolvimento (?), um case-study caiu qual castelo de cartas, vítima dos que, eleitos sucessivamente, lhe comprometeram o futuro. E numa ilha parca de recursos e onde o investimento público no betão e asfalto não criou riqueza, o recurso à secular emigração para as eternas e sempre renovadas Demeraras da diáspora continua a ser a solução… Em resposta, os responsáveis por décadas de governação ruinosa entretêm-se em vulgares disputas internas de poder… Ou então, com a falência à porta concelhia do despesismo perdulário e irresponsabilidade camarárias, contraem novos empréstimos para alimentar a usura financeira, que o povo e as empresas pagarão caro, em agravados impostos e taxas municipais, deprimindo ainda mais o já frágil e decadente tecido económico e social. Passa-se fome, escasseiam as respostas, esfumou-se uma auto-estima e segurança incipiente com a autonomia e regressam os sentimentos da vulnerabilidade e da incerteza. Perdidos os sonhos, a ilha mostra-se como é: limitada, parca de recursos, dependente do exterior, agora refém de uma dívida que os deslumbrados e irresponsáveis governantes eleitos deixarão como herança às gerações vindouras que conseguirem por cá sobreviver. Nunca como agora foi o tempo da praça!

Júlia Caré