Violante Saramago Matos «Enquanto Aedes aegypti residente na Madeira, filha de imigrantes, a única coisa que posso dizer é OBRIGADINHO. Por: - terem deixado os meus pais entrar clandestinamente (…); - terem mandado às urtigas uns idiotas (…) que desde há uns 5 anos andam a caluniar-me: é porque pico (…), porque sou uma praga (… é certo que há uns quantos que vão bater ao hospital, mas nada de especial) ou porque, imagine-se, se apanho alguém com dengue, então é que vai ser (as calúnias que me fazem!); - terem atirado para o lixo umas disparatadas decisões dos deputados da oposição (sempre eles, na Assembleia Legislativa) que queriam matar-me antes de ter nascido. Então não é que queriam acções concertadas das Secretarias da Saúde, da Educação e do Ambiente com as câmaras municipais para dar cabo de mim? (…) que se fosse perguntar a quem sabe o que é que se podia fazer para que os meus pais e tios não estendessem a criação para fora dos limites de Santa Luzia - nem quero pensar, mas eu não estaria certamente aqui se alguém lhes tivesse dado ouvidos; - terem interrompido as acções junto da população. Qual informação na televisão, quais folhetos educativos, qual porta a porta, quais nada. Além da quantidade de papel e de gasolina que se gastava para essas distribuições, era o que faltava se todos ficassem a saber que tinham mesmo que tirar os pratos dos vasos das plantas, não podiam deixar pneus vazios à chuva ou manter pocinhas de água - enfim aqueles sítios de encantar onde ponho ovos e espero que os filhotes nasçam; (…) Depois de todos estes agradecimentos suplico-vos, (…): - que não peçam ajuda a ninguém (ele há para aí uns convencidos, mas não têm nada a ensinar-vos); - que nem pensem em luta biológica (já sei o que aconteceu com uns parentes meus muito afastados, umas tais moscas da fruta, que tanto sofreram com a produção de indivíduos estéreis).» Aqui ficam excertos de uma Carta, de Outubro de 2008, que podia ser de hoje porque nada mudou - o governo deixou de tomar medidas para assegurar a desinfestação, a prevenção, a educação e o esclarecimento; prefere optar por inutilidades como a cota 500, ou loucuras de consequências de risco como o cais e a foz das ribeiras. E é de temer que a realização das análises na Madeira sirva para ocultar números, até porque se conhece a 'transparência' regional: ainda agora, no dia em que aqui se garantia que não havia resultados, em Lisboa anunciava-se mais de 20 casos - números que, cá e à boca pequena, já se comentavam. Estamos conversados! Os mosquitos estão à solta e o dengue instalou-se. Os casos vão aumentar e as pessoas sofrerão mais. Agravar-se-ão os custos para a saúde pública e são previsíveis reflexos na economia. E que não apareça estirpe mais grave! Saber de todos estes perigos e decidir não tomar as medidas necessárias para os prevenir revela a índole deste governo. Por muito que se afirme 'de consciência tranquila' e que o seu presidente desapareça para mais uma 'reunião importante', talvez sabedor da bomba que estava para rebentar.