Manuel de Oliveira, com 103 anos, nestes tempos de crise quis continuar a filmar. O seu novo filme, apresentado em Veneza, é "O Gebo e a Sombra". Raul Brandão, em 1923, escreveu uma peça teatral sobre a pobreza, que com Manuel de Oliveira passou a ser um filme também sobre o poder do dinheiro. Não terá sido por acaso que o Mestre na arte de filmar optou, nestes dias de embrutecimento e selvajaria, por olhar os condenados da terra. Foi para dizer o essencial que escolheu um livro em que há páginas mais belas em dor, em humanidade, do que as de Dostoievski. A realidade social está hoje marcada por violentas expressões, como a fome e a miséria. Emergem novas e galopantes formas de empobrecimento. Na Madeira e Porto Santo, alastra o desemprego, os salários em atraso, a precariedade e a exploração laboral. Aumentam as dificuldades no acesso à saúde, à educação ou à justiça. Agudizam-se as assimetrias sociais e regionais em resultado da crescente desigualdade na distribuição da riqueza. Coloca-se uma questão de fundo: atenuar as situações extremas de pobreza-todos os dias mais amplas-ou encetar um novo caminho para lhes dar efetivo combate? No dia 11 de Outubro chega às salas o filme. No texto de Brandão, como no cinema de Oliveira, questiona-se sobre a pobreza: "Resta saber se vimos a este mundo para sermos felizes". Escolher "O Gebo e a Sombra" é erguer a voz por estas interrogações vitais: não haverá limites para a desumanidade? Até quando permitiremos tamanha dor?

Edgar Silva, Líder do PCP na Madeira