Parece que alguém nos atirou uma maldição. Desde os tempos de ostentação grande riqueza de 2004, a Madeira tem vindo a recuar no tempo. E tem sido notícia, no País e na Europa, pelas piores razões. Primeiro foi aquela crise política inventada por quem se sentia acossado por um governo nacional que dava os primeiros sinais de não ceder às tradicionais chantagens deste lado do Atlântico. “Garrote” e “traidores” foram duas palavras muito usadas por quem mandava nessa altura, manda hoje e sempre mandou na Madeira pós-25 de Abril. Depois, e em jeito de consequência desse garrote e dessa tradição, num golpe que apenas deu jeito aos mesmos de sempre, obrigaram-nos a ir a votos. Objectivo: estancar a onda de crescimento que começava a nascer com socialistas e centristas. Perante a ameaça do perigo externo, nada melhor do que reforçar o poder interno. E o povo, em 2007, caiu no logro e deu ainda mais poder ao poder. Desse reforço não sairia nada de novo. Lisboa continuaria imperturbável, Sócrates e Teixeira dos Santos continuavam a ser inimigos da Madeira. Até que a natureza se encarregou de dar uma dispensável ajuda com o 20 de Fevereiro de 2010. O País teve pena de nós, a Europa teve pena de nós. Sócrates abriu os cordões à bolsa tal como fizera Guterres e outros como eles. O garrote deu lugar ao cofre aberto e voltou a jorrar dinheiro sem regras através de conveniente legislação. Esqueceram-se dos limites ao endividamento, dos reportes financeiros, das estatísticas. E sobre a dívida, fizeram mais e mais dívida. E cavacaram um buraco financeiro tapado com folhas de bananeira. Lisboa mudou de governo e um inexperiente e terrivelmente calmo ministro Gaspar caiu logo na crateras de dívidas que o nosso bem intencionado governo tratou de deixar para nós, os nossos filhos e netos. Quando pensávamos que começávamos a levantar cabeça, eis que somos novamente empurrados para baixo pela natureza com incêndios de grandes proporções. Alguns terão sido mesmo naturais, outras tiveram claramente a mão do homem. Em minúscula, que gente desta não merece mais. E entre a gente desta temos os incendiários propriamente ditos, aqueles que riscaram o palhete, e os outros, os que deixaram que a floresta e pequenas porções de mato em áreas residenciais permitissem tamanha tragédia em tão pouco tempo. Novamente quando os madeirenses procuram forças para retomar o caminho, somos outra vez flagelados pela natureza que nos dá agora uma doença que dispensávamos perfeitamente. E o pior disto tudo é que no caso do dengue não foi por falta de aviso, não foi por ausência de alertas de especialistas. Não, foi porque desistimos de lutar. E ao contrário da Gripe A, que também nos atingiu antes e onde nos revelámos capazes de suster o surto com largas campanhas de prevenção, neste caso deixamos correr o mosquito. Quem manda decidiu cruzar os braços, mandou parar a luta e avançou para estudos que vão concluir o que já sabemos: que temos de aprender a viver com o dengue. Agora, que a doença é um facto consumado, parece que já não surpreende as autoridades. Parece que era um mal esperado como quem espera a bonança depois da tempestade, como algo perfeitamente normal. Normal, teria sido insistir nos alertas, preparar o povo, continuar com as campanhas de informação. Normal teria sido gastar o dinheiro que fosse preciso nesta prioridade e tentar contrariar a praga de mosquitos. Normal teria sido não importar tanta palmeira nem tanta areia amarela. Normal teria sido não bulir tanto com a natureza. Parar, desistir e esperar é que foi uma atitude anormal no reino da normalidade e da impunidade. E aqui apetece citar duas frases que marcaram os últimos dias: primeiro de Henrique Costa Neves e depois de António Sales Caldeira. Disse o vereador perante as obras nas ribeiras da Funchal: “E ninguém é responsabilizado, ninguém é preso, ninguém é demitido.” Disse o empresário: “o que é caro é a negligência, ignorância, o olhar para o lado”. No meio de tantas impunidades e imunidades, aparecem os especialistas na arte da distracção a fazer o que sempre fizeram ao longo de mais de 30 anos: a lançar bolas de fumo embrulhadas em ameaças de separatismo, independências e fatalismos internos provocados por uma normal disputa de liderança do partido e do governo. E quem manda volta a erguer os espantalhos de sempre sem se aperceber de que, mais uma vez, estas ameaças ridículas não assustam ninguém. Muitos menos Pedro Passos Coelho ou Vítor Gaspar. Mais grave do que isso, essas balelas atiradas para Lisboa apenas fazem ricochete e voltam para cá sobre a forma de mais austeridade derramada sobre todos nós por culpa de apenas alguns. E cá estamos nós, resignados, entre tragédias naturais e outras causadas pelo homem. Em minúscula, que gente desta não merece mais.