“O poder é afrodisíaco?”, perguntava o jornalista da RTP 1, Vítor Gonçalves, a Alberto João Jardim, numa entrevista na Quinta Vigia. “Não”, garantia o líder insular. “Mas corrompe?”, insistia o repórter. “Só a quem se deixa corromper”.

Há uns anos Paulo Portas, quando era director de um jornal, respondia na televisão à mesma pergunta, dizendo ser avesso a qualquer tipo de poder. Já Pedro Passos Coelho, na oposição, disse não ter pressa de ir ao “pote”.

O poder tem de facto algo de incompreensível ao comum dos mortais, cuja única forma de governo que conhecem é o da sua própria casa. Cá e lá, o poder descamba em tiques de autoritarismo. No Funchal, é às claras. São décadas de poder absoluto, temperado com ameaças e medo. É uma teia de interesses em que o patriarca diz que toma conta dos filhos, mas não hesita em dar-lhes um chuto se estes saírem da rédea curta que lhes é imposta. Em Lisboa, o descaramento não é menor. A alternância serve para que quem está momentaneamente na oposição critique, aponte e crucifixe comportamentos, que depois não se inibirá de repetir quando estiver no Governo.

Engolem-se promessas eleitorais, na esperança que o povo se esqueça, informa-se primeiro Bruxelas e só depois o país sobre medidas que afectam toda a gente, interpreta-se os sinais que o povo dá na rua como se quer. Cá e lá, atira-se sempre culpas para alguém. Na Madeira, o problema é de Lisboa que é centralista e não manda dinheiro. No continente será sempre de quem por lá passou e governou irresponsavelmente, do memorando que outros assinaram e da crise internacional. O problema maior é a culpa morrer solteira. É não haver consequência alguma - a não ser o castigo nas urnas , que se tem revelado ineficaz – para a gestão danosa e ruinosa que tem sido prática corrente no país. Cá e lá, impera a impunidade.

E a consequência maior disto tudo pode-se pensar que é a austeridade que cai sempre sobre o povo. Mas pior do que isso é o controle do poder sobre a sociedade, que está presa à ideia de que não há outro caminho, nem alternativa. E que o contrário disto será uma coisa pior. O pior é o medo. Isto é perigoso e tem nome.