Durante esta semana soltaram-se algumas feras, dinossauros políticos e comissários de propaganda partidária com a missão de, com manobras de intimidação, tentar estancar aquilo que consideram ser eventuais rebeliões internas de anti-convergência no Governo da República. A congeminação de vozes comunga de um mesmo ‘bem’: garantir que hoje haverá unanimidade no sentido de voto nas bancadas parlamentares do PSD e CDS, durante a votação na generalidade da proposta do governo para o Orçamento de Estado 2013, na Assembleia da República. Além de garantir a aprovação daquele massacre aos portugueses, o objectivo final é, imagine-se, dar um claro sinal de que há de facto coesão no governo. Lá vem mais poeira para os olhos.

Depois das ameaças de sanção disciplinar para amedrontar o estreante deputado centrista Rui Barreto na Assembleia da República, veio a terreiro um velho cacique, Ribeiro e Castro, acusar o CDS da Madeira de sofrer um “ataque de jardinismo” por ter admitido votar contra o OE. A provocação não poderia ter sido mais contundente: se vocês não se colam ao PSD de Passos Coelho, então só podem estar feitos com o PSD de Alberto João Jardim. Onde já ouvimos isto? Soa-nos a algo terrivelmente familiar.

Duvido que o conceito tenha saído da cabeça do empresário Ribeiro e Castro. Talvez tenha sido da má digestão dos resultados nas eleições para os órgãos sociais do Benfica, após a derrota esmagadora de Rui Rangel, do qual foi mandatário durante a campanha. Então quem votar contra o OE sofre dessa doença “ataque de jardinismo”? É assim que o CDS passa uma esponja naquilo que foram as posições e compromissos assumidos por Paulo Portas como a consolidação orçamental com dois terços do lado da despesa? Será que Bagão Felix, ex-ministro da Segurança Social do CDS, padece da mesma patologia por ter admitido votar contra esta proposta do OE por achar que a subida de impostos é um “napalm fiscal” devastador para os contribuintes e uma “septicemia” para a economia? Há de facto uma generalizada crise de princípios, de valores e um galopante défice de coerência na política em Portugal. O seguidismo cego é o pior aliado da democracia participativa, na qual o pluralismo é parte fundamental. É precisamente quando a disciplina partidária parlamentar abocanha a liberdade de consciência individual que se dá o tal "ataque de jardinismo". E desse mal já padece a Madeira há mais de 30 anos.