O desporto madeirense parece ter entrado num beco sem saída. Num país fechado para obras e numa região submersa numa crise infindável, com problemas transversais a toda a sociedade, não me parece curial que a luz ao fundo do túnel possa ser vista a curto/médio prazo. A política desportiva da região, bandeira de quem nos governa há mais de trinta anos, desmoronou-se num ápice. Tal como a fábula de La Fontaine, também a maioria dos agentes desportivos desta terra foram cigarras divertidas e megalómanas, pelo que, com as chuvas e ventos fortes que chegaram (não confundir com o mau tempo meteorológico que assolou a Madeira), nem um abrigo encontraram para se recolher. E, sem resolver um passado recente, não há presente que sustente um futuro. Há quem diga que a Madeira, em termos desportivos, vai regredir até aos anos oitenta. Nem sou tão optimista, penso mesmo que vamos voltar aos anos sessenta, ao tempo da 'Velha Senhora'. Nessa altura o desporto na Madeira não saía do recôndito espaço insular, o desporto nas escolas era uma miragem, o futebol não ia além de o eixo Funchal/Machico e estava condicionado à Ilha. Sair para o espaço continental apenas era permitido para disputar a Taça de Portugal e, muitas vezes, depois de conquistar esse direito com o representante açoriano. Para além do futebol, a natação contentava-se com a velha piscina do Lido, e, se o hóquei em patins conheceu um período áureo nesses anos, as restantes modalidades colectivas eram praticadas ao nível da extinta FNAT (agora Inatel). Hoje há piscinas que não podem ser usadas, há pavilhões condicionados, há campos maltratados. Se não houver uma saída para isso, isto é, se não houver dinheiro e se o futebol profissional não se aguentar, ficaremos, quiçá, pior que nesses sombrios anos antes da conquista da Autonomia. Com tudo isso, e sendo inquestionável que os clubes merecem ser ressarcidos daquilo que lhes é devido, nada será como antes. Um novo modelo terá que nascer, no fundo, uma refundação (onde ouvi isto?) de um modelo que há muito deveria ter sido feito, e não o foi por falta de coragem política. Agora, senhores presidentes dos clubes, chantagear com a formação, não lhes fica nada bem, muito menos impedir aqueles que, bem ou mal, estão preparados para arrancar e, sobretudo, colocar as crianças a praticar desporto. Elas, as crianças, não podem ser usadas neste braço de ferro.
Emanuel Rosa, Repórter