Narciso era um herói grego, filho do deus-rio Cephisus e da ninfa Liríope. Era tão belo que se comparava a um deus, cuja graciosidade seria semelhante a Dionísio ou a Apolo. Tudo lhe era permitido, excepto ver a sua própria face. Muitas ninfas e donzelas por ele se encantaram e apaixonaram, mas embevecido pela sua própria beleza todas rejeitava sem dó, nem piedade, julgando que nenhuma era merecedora do seu amor. Tal era o seu despeito que uma deusa acabou por se solidarizar com as jovens enjeitadas e, depois de um intenso dia de caçada nos bosques, levou-o a beber água na margem de um rio. Descuidando-se, acabou por ver-se reflectido nas águas cristalinas do rio. Ficou centrado em si mesmo, incapaz de se libertar de tamanha contemplação e auto-admiração. Viu uma figura encantadora, quis beijar, tocar, acariciar e abraçar aquele ser tão belo, que pensou ser um espírito das águas e que o olhava, igualmente, embevecido. Aquela imagem de uma beleza infinita retribuía os seus gestos: o seu olhar, o leve toque da sua mão, o seu sorriso. Mas, quando se debruçava para o abraçar, o ser fugia rapidamente, regressando em seguida quando as águas se acalmavam, assim criando uma profunda ansiedade em Narciso. Narciso, não queria, não podia sair dali. Senão podia tocar, tinha ao menos de admirar. E foi ficando, ficando, ficando. Narciso esqueceu-se de comer e de beber tal era o poder inebriante de auto-contemplação e, sem dar conta, Narciso foi perdendo as forças, a energia, as cores. Enquanto Narciso, definhando progressivamente, suspirava de amor sobre si mesmo, as ninfas choravam o seu previsível destino. E, em lembrança e também em reconhecimento daquele Narciso, que outrora fora aquele belo ser, haverá de nascer uma flor que tomará o seu nome. Se calhar, existirão leitores que encontram analogias entre este mito e o percurso de um partido político com mais de trinta anos de poder na Madeira Contemporânea…
Raquel Fraga, Historiadora de Arte