Para além dos efeitos ao nível dos salários e do acesso a bens e produtos, com uma oferta cada vez mais reduzida ao essencial, a crise que se instalou no passado recente e que, ao que tudo indica, durará bastante tempo, ajudou a trazer à tona um outro conjunto de fenómenos que convém não ignorar. Um deles, esperado e natural, é o da conflitualidade social, que ganhou uma grande expressão entre nós, sobretudo desde o anúncio da TSU. Sempre latente, esta conflitualidade encontrou, aí, uma via de escoamento que, pelo menos, teve o aspeto positivo de diminuir uma pressão que se sentia há já bastante tempo. Mas continuará a agravar-se e, como muitos receiam, poderá conduzir-nos para patamares de intranquilidade perigosos. Mas há outros tipos de conflitualidade que se têm vindo a agudizar e que poderão assumir, pelo volume e violência, uma expressão muito preocupante. O flagelo do desemprego, com a insegurança que motiva, conduzirá as pessoas a um grau de exigência na observância cada vez mais rigorosa, sobretudo por parte das instituições públicas, de todas as regras e procedimentos previstos na sua avaliação, renovação de contratos e promoções. Na qualidade dos serviços sentir-se-á algo de parecido, com as pessoas a serem cada vez mais exigentes no que diz respeito à qualidade daquilo que compram, porque lhes custa cada vez mais pagar. As organizações do estado que, é bom reconhecer, evoluíram muito deste ponto de vista, terão aqui dois desafios colossais a enfrentar nos próximos tempos. A um outro nível, situa-se a conflitualidade de grupo contra o estado, ou aqueles que o representam. Este tipo de conflitualidade tem vindo a crescer nos últimos anos, através da utilização dos mais diversos dispositivos de natureza jurídica e vai desde a pressão popular a ações judiciais concretas contra organismos da mais diversa ordem, por decisões que tomaram ou deixaram de tomar. É neste quadro que se insere a recente decisão de um tribunal italiano no sentido de penalizar, de forma muito dura, um conjunto de cientistas pelo seu comportamento antes do tremor de terra que vitimou centenas de pessoas na cidade de Áquila. Independentemente das razões que o tribunal terá ou não tido, tema bastante para longas discussões sobre a proteção que devem, ou não, ter os cientistas a quem se pedem opiniões e previsões sobre o futuro, a presente decisão poderá marcar uma mudança substancial de atitude dos estados e das populações em relação à ciência e aos que a praticam. Com efeito, a comunidade científica tem baseado a sua atividade de assessoria e consultoria junto da sociedade civil em princípios de separação da ciência e da política e em princípios de liberdade que esta decisão de um tribunal italiano veio questionar muito concretamente. E fê-lo numa área da ciência onde sempre se soube que a capacidade de previsão é praticamente nula, o que aliás poderia conduzir a um debate muito interessante sobre os limites da ciência e sobre a excessiva fé que se tem depositado na sua capacidade para resolver todos os nossos problemas. As reações da comunidade científica, num certo sentido, podem ser vistas como conducentes a este debate mas, na origem, o que encontramos é uma sociedade desesperada, em profunda crise e que procura, a todo o custo, encontrar responsáveis pelas suas desgraças. Confrontada com a cada vez mais óbvia incapacidade do estado para resolver os seus problemas, um estado que a habituou a vê-lo como garante de quase tudo, a sociedade reage com o desagrado de quem acorda de um sonho, responsabilizando tudo e todos. No fundo, aquilo a que assistimos neste caso é a uma espécie de materialização da profunda desconfiança das populações em relação às instituições e aos estados. Algo que, a meu ver, não pode ser ignorado e a que não se pode reagir a quente. Se é verdade que este processo italiano se reveste de algumas características que podem ser descritas como inquisitoriais, como afirmaram alguns comentadores, a verdade é que ele deve também servir para que as instituições avaliem a forma como procedem e, sobretudo, melhorem o seu funcionamento por forma a restaurarem a confiança dos contribuintes, uma confiança que ameaça desaparecer. Irremediavelmente.
Castanheira da Costa