António Ribeiro Marques da Silva É um livro de viagens do, para mim, desconhecido autor russo Ivan Goncharov, escrito em 1852, em que se incluem várias visitas entre as quais algumas referentes à Madeira, Londres e Cabo Verde. É um livro belíssimo, original, muito bem escrito e traduzido por Alberto Taddei e em feliz edição da DRAC, na colecção À Esquina do Mundo, tendo como coordenador António Fournier que escreve uma espécie de soberbo posfácio ou comentário ao livro que acabámos de ler. A originalidade do livro tem a ver com o facto de, ao contrário dos muitos livros que li sobre a Madeira nunca ter encontrado um, como este, em que o autor se divorcia deliberadamente da "obrigação" de registar aplicadamenteos topónimos, as descrições de paisagens, as indicações sobre as terras e suas produções, as visítas ao património construído e natural e outras particularidades que caem sob a alçada do turista muito cônscio da sua missão de divulgador opinioso. O próprio Goncharov diz que não viajava para "observar" mas apenas para "viver e olhar para tudo sem esforçar o sentido de observação". Daí desprezar o livro-guia de que se munem os turistas ao assaltarem o Museu Britânico e terem de encarar "aquela colossal colectânea de raridade e objectos científicos". Primeiro interessa-lhe olhar as ruas, vaguear entre pessoas vivas e não múmias, enfim, conhecer o povo. Parece que ao encarar a Madeira cedendo a estas "amputações" , nada tiremos a dizer da nossa Ilha. Não ! A paisagem está em Goncharov, enaltecida, grandiosa, num cenário que ressalta das águas "ofuscando-nos com a visão do céu e oceano". As coisas são-nos dadas através de uma romântica desfocagem que nos desperta para um rendido maravilhamento. A distância marcada pelo desconhecimento da língua não o separa dos humildes carregadores que o transportam pelas serras. Maravilha-se com o ar perfumado, a sua transparência e a temperatura e grita: "onde é que há invernos como este?"[ Envergonhado e falando baixo, lembro-me, na actualidade, dos malditos mosquitos...] Não interessa, leiam este livro e outros desta colecção À Esquina do Mundo... e não se esqueçam da Ana Teresa Pereira e do seu grande prémio. Quando será que "O Lago" chega à Bertrand e à FNAC ?