
Não tive paciência para ler as 76 páginas da moção de Alberto João Jardim. Não tem interesse, novidade, acutilância, nem um contributo para o futuro. Duvido que alguém o tenha feito, mesmo o mais cego dos seus apoiantes. O eterno líder do PSD-M pode subir aos palcos de comícios, enumerar as obras e conquistas do passado, intitular-se campeão pela enésima vez de vitórias eleitorais, ridicularizar a oposição, intimidar qualquer sombra ao seu poder soberano e apregoar a revisão constitucional e acenar com o separatismo, que isso não acrescenta pão na nossa mesa. Estamos habituados a esse folclore de pólvora seca. Agora dispenso aquela propaganda de sensasionalismo primário, as lágrimas de crocodilo, a demagogia política que insiste em passar um latente atestado de menoridade aos madeirenses como que se o analfabetismo e a iliteracia eleitoral se mantivesse igual à de há 20 anos. Jardim continua convencido que o povo gosta de pagar para ser enganado.
A moção que Alberto João Jardim vai apresentar ao XIV Congresso Regional do PSD-M é uma alegoria dramática verosímil, capaz de fazer corar de vergonha o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. Ambos têm o seu Joanne, o Parvo, que entra na barca da Glória, protegido por um anjo que ninguém sabe bem quem é, mas que está determinado a absolver de todos os pecados o tal bobo senil, considerando que os erros cometidos em vida não foram premeditados, declarando-o inimputável aos olhos da justiça divina. Onde já vimos este filme?
O impune e eterno líder veio apregoar a esperança. Envergou um pólo verde, fingiu-se comovido com a pulverização de carga fiscal sobre os portugueses, com a precariedade laboral que alastra, com o desemprego e com as baixas pensões, com a perda de independência financeira, lamentou em lacrimejo a administração central refém da ‘troika’ e, no fim, fez de conta que nada disso acontece cá no burgo insular. Falou, imagine-se, em “realizar a esperança” contra o “testa-de-ferro dos inimigos do PSD”, contra “o que quer suicidar o partido” e o “desempregado político” que lança “facas nas costas”. Agora que tem pela primeira vez um concorrente na corrida à liderança do PSD, Jardim percebe de tem de correr, mas está mais obcecado em controlar o poder do partido da mesma forma prepotente, autoritária e absolutista que tem governado a Madeira.
Mas como pode, afinal, "realizar a esperança" um homem que governa há 36 anos uma região falida? Como pode o coveiro convencer que há vida além morte? A única cor que dali prolifera é o verde da putrefacção. O verde da omissão, da incompetência e da imoralidade, da falta de transparência e da ilegalidade ou, na melhor das hipóteses, do bolor, de um fungo que é uma fitopatologia que habitualmente dá nas laranjas quando estão há demasiado tempo na fruteira.