Vivemos hoje um tempo surpreendente! O tempo da crise, aquele em que, apesar de tudo o que acontece, o sol continua a bater de frente e o horizonte surge iluminado diante dos nossos olhos. Vivemos um tempo em que não só a economia não cresce, como o modelo que a suporta apresenta imensas fragilidades (dizem hoje os "peritos"), vivemos uma hora em que temos de fazer o balanço da sua funcionalidade e da justiça e da equidade (das injustiças e das desigualdades) geradas. Construímos, nos últimos anos, um autêntico castelo de cartas com necessidades e imperativos, quase sempre sem a preocupação por qualquer encontro, qualquer fala dirigida aos outros: o que é que o outro quer? De que é que realmente precisa? A actual crise financeira e económica, essa de que tanto se fala, é apenas a ponta de um iceberg poderoso, a última cena de uma história trágica, história essa que, apesar de nela participarmos como espectadores, fazemos de conta que não ouvimos e não sabemos o que se passa. Recordo a este propósito as notícias relativamente recentes de que foi descoberto, no interior do pais, um casal em que o homem, há muitos anos que maltratava e mesmo escravizava, de modo selvático, a sua mulher. Nos dias seguintes os diferentes meios de comunicação social encheram-se de testemunhos e depoimentos de familiares e vizinhos que diziam que há muito tempo que sabiam daquilo que se passava; a vizinhança ouvia os gritos desesperados da mulher e sabiam porque tal acontecia. Apesar das evidências da situação, que todos estavam a ver e a ouvir, ninguém quis realmente saber. Do mesmo modo, desde há algum tempo que se foram somando evidências de um descalabro económico global que tinha as suas raízes profundas no estilhaçamento do modelo cultural e de valores. Há, portanto, um carro desgovernado que vai, está a ir contra uma parede e nada o parece parar. Devemos estão perguntar: que momento é este em que vivemos? Vemos, ouvimos e lemos, sabemos e podemos, mas fazemos de conta, adiamos, não agimos. Temos dificuldade em saber o que realmente se passa, apesar de pensarmos que sabemos tudo acerca do que se passa. Fazer de conta, como princípio estruturante da nossa vida em comum, num contexto em que andamos tão centrados em nós próprios, num individualismo galopante e tão adormecidos no consumo descontroladamente desafiante, não parece ser o caminho para nada de bom para o ser humano. Temos de parar para pensar enquanto é tempo, ou seja, enquanto o carro desgovernado ainda corre, recusando a hipocrisia, o faz de conta que não sei, que não tenho medo, que não me sinto inseguro, que não hesito, que não acordo assustado, que não posso agir. É preciso que tenhamos tempo para nos exprimirmos, na nossa linguagem própria, num exercício de responsabilidade e de espírito crítico sobre os dias que vivemos, para irmos trilhando com os nossos pés caminhos de renovada esperança, participando na construção de dias melhores. De facto, este é um tempo "negro" em que, paradoxalmente, se pode ver muito mais claro. Um tempo muito duro e difícil para quase todos; mas, até nessa rudeza injusta, nessa luz que cega, há uma voz que fala. Um chamamento ao que é o mais importante, ao essencial, ao retorno ao fio do que nos sustenta realmente e não apenas aparentemente.
Marco Gomes