O desemprego subiu a escada, pé ante pé. Bateu nas costas de pessoas que me habituei a ver em frente a um computador igual ao meu, a chamar amigo, a tomar café no corredor transformado em sala de fumo, a discutir os destinos do país, da cidade, do jornal ou mesmo da família. Não lhes posso dizer, como me ensinou a avozinha da Achada dos Judeus, que "sempre que uma janela se fecha há uma porta que se abre". Sei (sou jornalista, por Deus, quantas vezes já escrevi sobre isso nos últimos meses?) que a taxa de desemprego bate recordes e que a protecção social agoniza. O Público despediu 48 pessoas. A Impresa - dona da Sic, do Expresso, da Visão e de outros jornais e revistas - propôs rescisão a mais de 50. A ControlInveste - dona do Diário de Notícias, do Jornal de Notícias, da TSF, d'0 Jogo, de parte do Diário de Notícias da Madeira - passa para a mão de um grupo angolano. A agência Lusa pode sofrer um corte de 30% no financiamento público. Não é só aqui. The New York Times, que perdeu umas 100 pessoas em 2009, rescindiu com umas 50 este ano. El Pais, em Espanha, quer despedir 128 e mandar 21 para a pré-reforma. The Guardian, em Inglaterra, quer despachar 70 a 100. O grupo que detém a Gazeta Wyborcza, na Polónia, 250. As redacções estão a enfraquecer e, com elas, o jornalismo e, com ele, a possibilidade de cada um ter opiniões fundamentadas, de tomar decisões esclarecidas sobre o seu município, a sua região ou o seu país. Pode parecer uma coisa sem importância num momento em que tantas famílias estão aflitas para pagar a casa ou meter comida na mesa, mas sem jornalismo não há democracia. O jornalismo não se esgota na "reprodução das informações que chegam às redacções", como lembra o manifesto "Pelo jornalismo, pela democracia", que pode encontrar na página electrónica "Petições Públicas" (http:/www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2012N30627 ). O jornalismo "assenta na verificação e na validação da informação, na atribuição de relevância às fontes e acontecimentos, na fiscalização dos diferentes poderes e na oferta de uma pluralidade de olhares e de pontos de vista que dêem aos cidadãos um conhecimento informado do que é do interesse público". Não sei como podemos ultrapassar este vendaval. Sei que o jornalismo deve ser preservado, defendido, sob pena de se transformar numa coisa outra, como diria o saudoso Eduardo Prado Coelho. Há que salvá-lo. E é impossível salvá-lo sem envolver os leitores. Se tiver alguma ideia, escreva-me. Urge renovar esperança.
Ana Cristina Pereira