Numa altura em que o futuro de milhares de madeirenses está nas mãos de centenas de social-democratas percebemos, finalmente, o que agora parece claro: somos, e fomos, governados por alguém de outro planeta. O único presidente que a minha geração conheceu e conhece sabe de tudo. De ciências, de medicina, de engenharia, de agricultura, de canto tradicional, de alta finança, de geografia, de estratégia política, dos modelos de gestão dessa Europa toda, de psicologia barata e, sobretudo, de obras caras. O único presidente que a minha geração conheceu e conhece sabe tudo isto. Só não sabe, nem parece interessado em saber, do rumo que a Madeira vem seguindo nos últimos anos. Ainda agora vejo o que para mim deixou de ser surpresa: sua excelência o único presidente que a minha geração conheceu e conhece foi apanhado desprevenido e atacado à 'falsa fé' pelo ministro das Finanças que nunca lhe disse nada sobre o fecho da torneira do Orçamento de Estado enquanto a Madeira não cumprir aquilo a que se comprometeu no Plano de Ajustamento Económico e Financeiro. E isso não se faz. Quer dizer: o ministro fez um texto que o presidente leu e releu, concordou e mandou assinar. Mas o presidente, como está bom de ver, dá a ideia de que não sabia que era para fazer aquilo que assumiu que ia fazer. Mas não é só nestas coisas de acordos ao mais alto nível que o presidente é atacado por uma amnésia ainda mais demolidoroa do que a formiga branca. Há tanta coisa que o presidente não sabia e que os madeirenses foram obrigados a saber e a pagar por isso. Exemplos: O presidente nunca soube do buraco financeiro da Região; e quando soube tratou de o mandar tapar (à conta das nossas contas); O presidente nunca soube de procedimentos menos correctos com pessoas do seu partido; e quando soube, ou foi obrigado a saber, disse.. que não sabia. O presidente nunca soube nada, mas mesmo nada, dos mosquitos que nasceram na freguesia onde vive quando não está de viagem e já mandaram centenas para as urgências; e quando soube parecia que não sabia. O presidente nunca soube que havia casas construídas em locais perigosos; e quanto soube, sobretudo depois do 20 de Fevereiro, deu a entender que não sabia que ali vivia gente. O presidente nunca soube que o Centro Internacional de Negócios da Madeira, da forma como estava, dava indicadores empolados sobre a Madeira; e quando soube fingiu que não sabia que por dar a ideia de rico, mesmo sendo presidente de uma terra pobre, perdia milhões e milhões da União Europeia. O presidente nunca soube que a Madeira sempre teve uma das mais elevadas taxas de analfabetismo do País; e quando soube mandou dizer que o povo não come conhecimento e as obras não se fazem com folhas de bananeira. O presidente nunca soube que alguns dos maiores impérios da Madeira se construiram rapidamente e à sua ilharga; e quando souber vai dizer que defendeu o patronato madeirense, mas que, da sua parte, continua pobre como quando entrou na política. Mesmo que receba um ordenado e uma reforma como poucos neste País. O presidente nunca soube que na Madeira havia um indíce de pobreza superior a outros pontos do País; e quando soube e quando a fome lhe entra pela Quinta Vigia adentro é que mandou, por indicação de Lisboa, abrir cantinas sociais. O presidente nunca soube que havia desempregados na Madeira. Jurava, e até parece que mandava jurar, que reinava por cá um clima de paz social; e quando soube dos mais de 20 mil desempregados encheu o peito e assumiu o problema: disse que a culpa era de Lisboa. O presidente nunca soube que o modelo desportivo da Madeira assenta numa base duvidosa, que em alguns casos viajavam mais dirigentes e técnicos do que atletas; que os clubes cresciam como cogumelos; que construíamos pavilhões a torto e a direito; e quando soube tratou de mandar fechar alguns deles porque sua excelência o presidente não é cá dessas coisas de gestão em cima do joelho. O presidente nunca soube que havia obras a mais nas obras que mandava fazer e que, naturalmente, custavam milhões a mais; e quando soube tratou de mandar desmentir tudo. Tudo mesmo. Onde é que já se viu um presidente comprometido com certas cartas em jeito de denúncia! O presidente nunca soube que Miguel Albuquerque, afinal, pensava mesmo pela sua própria cabeça. E que um dia teria a coragem de enfrentar o único presidente que a minha geração conheceu e conhece; quando soube, o presidente, ele próprio, tratou de dizer que estava arrependido de elogiar Albuquerque. Já chega. A lista de exemplos da falta de coragem, de coerência, de verdade, de honestidade intelectual de quem nos governa parece interminável. E chegamos sempre à mesma conclusão: o presidente que a minha geração conheceu e conhece nunca soube de nada desagradável para a sua governação; e quando soube fez sempre o mesmo, disse que não sabia de nada, que não estava lá, que não viu nem ouviu nada. Resta-nos uma conclusão: o presidente não sabe de nada que lhe dê problemas. E impõe-se uma pergunta: para que precisamos nós agora de um presidente assim? Para nada, a não ser para atrapalhar. Acredito que grande parte da população já percebeu este quadro mas falta a maior parte dos militantes do PSD-M. São esses que podem interromper o filme se decidirem passar de simples figurantes, tratados como marionetes, a actores principais de uma mudança que já vem tarde.