Olhar para a política (?) do Governo Regional faz-me lembrar aquele jogo que era frequente na minha infância. Alguém passava uma mensagem, sussurrada ao ouvido, que depois ia sendo repetida até ao receptor final, que desvendava o que lhe tinha sido transmitido. No fim, o segredo originava uma mensagem completamente deturpada e acabávamos todos a rir à gargalhada com a parvoíce.
Só que aqui não tem graça nenhuma. O segredinho inicial acaba sempre numa hipérbole, que de recurso estilístico não tem nada. E aquilo que se desconfia acaba sempre bem longe da mensagem inicial, por defeito. O que vem é sempre pior, não tenhamos dúvidas. Tem sido assim com tudo neste tempo, que não é de vacas magras, mas de ausência total de vacas, que foram esfoladas pelo regime e servidas com vinho seco em convívios da Madeira nova.
Foi assim com o Plano de Resgate, que habilmente foi chutado para depois das eleições regionais. Já se sabia que vinha aí austeridade, mas quando o DIÁRIO alvitrou que poderia seria a dobrar na Madeira foi logo apelidado de inimigo. Infelizmente, para todos os madeirenses, o tempo e os factos vieram mostrar que mesmo o DIÁRIO estava a ser optimista. Mas, entretanto, as eleições estão lá atrás e o povo legitimou os de sempre. Fica a dúvida: Com os dados todos os resultados seriam os mesmos? A pergunta vai directamente para o primeiro-ministro, a quem Alberto João Jardim terá muito a apontar, mas certamente este ‘pormenor’ a agradecer.
E a dívida oculta? Que começou com uma molhinho de facturas escondidas debaixo do tapete. Tudo para bem dos madeirenses, para os salvar da ‘vilanagem’ de Lisboa, que, imagine-se, começou a impor limites ao endividamento louco. Mas na verdade, o que temos disso tudo é uma data de sacrifícios sobre os cidadãos para pagar a irresponsabilidade e a tirania.
E agora temos a execução do plano dos horrores. Um falhanço em toda a linha. E o Governo lá vai dizendo que falha tanto aqui como em Lisboa. O que não é bem verdade, numa lógica meramente economicista. E mantém-se o segredinho. Já se sabia que a Região não estava a cumprir, que as transferências estavam suspensas. O Funchal tem alegado, contudo, que o problema é apenas a execução orçamental, os números, onde Lisboa não tem moral para falar. Mas soube-se agora pelo FMI que o entrave é bem maior, e que o Governo Regional ainda não apresentou um plano de pagamento de dívidas aos fornecedores. Em dez meses, não se conseguiu dizer a quem se deve, o quê e mostrar o devido comprovativo. O que é assustador. O Governo Regional continua a achar que não tem nada a dizer ao povo. Que está legitimado e isso chega-lhe.
Vejo com grande dificuldade que se mantenham por mais tempo os segredinhos. É que afinal a Lei de Finanças Regionais é mesmo para avançar e o relatório do Conselho de Finanças Públicas não foi um mero ‘fait-divers’. O Executivo nacional prepara-se para o maior assalto de sempre às conquistas autonómicas. Perto disto, a lei do ‘garrote’, que levou à demissão de Alberto João Jardim é, como diria José Sócrates, uma brincadeira de crianças. E o que faz o presidente do Governo Regional? Não sei, mas suponho que terá uma viagem importante. E o povo?