
Cheguei a acreditar que Alberto João Jardim tentara redimir-se quando confessou, num raro acto de contrição, que se sentia arrependido por ter feito alguma coisa de mal. Estaria a falar da ocultação das contas públicas? Da dívida de 123% do PIB? Do buraco de 6,3 mil milhões? Iria pedir desculpa aos madeirenses por deixar como herança um calote de 24 mil euros no berço de cada um dos seus filhos? Pela austeridade que assinou? Pelos 23 mil desempregados? Por a "Singapura do Atlântico" voltar a ser a região mais pobre do país? Não era uma questão de consciência, nem de pecados cometidos. Era a pura sede de poder a falar mais alto. No alvo da conversa de aparente circunstância estava Miguel Albuquerque e o arrependimento em tê-lo escolhido como recandidato para as eleições autárquicas. O arrependimento não caía propriamente sobre o presidente da Câmara Municipal do Funchal cujas vitórias tanto júbilo deu a Jardim. Incidia sobre o intruso e novo candidato do PSD-M. O tal “desempregado político” por limitação de mandatos, o primeiro a ousar enfrentar a supremacia do eterno acumulador de mandatos ilimitados e a questionar a sua celeste vontade em solidificar mais uma ode triunfal solitária na liderança do partido.
Aparecer assim uma lista alternativa, candidata a disputar a liderança de um partido que está no poder há 36 anos bem que poderia ser um sinal de amadurecimento político nesta jovem democracia, uma vitamina no pluralismo de um partido anémico de sague novo. Nada disso. O poder instalado não tem hábitos em matéria de confronto de ideias. Pior, tem pavor de debater medidas e de argumentar fundamentos. Prefere, antes, instalar um clima persecutório, formar um secretariado da propaganda para neutralizar os inimigos internos, pulverizar a opinião pública com branqueamento de informação intimidatória, infame e venenosa e armar uma guerrilha para contar espingardas e obrigar os militantes a assumirem posições numa clara caça ao homem. Parece óbvio que o medo em perder o poder está a originar um quadro demente, um transtorno de ansiedade obcessivo compulsivo cada vez mais evidente, resultando num ataque latente e orquestrado com o objectivo de abater quem se apresenta como alternativa, internamente como externamente. Um método idêntico àquele usado contra todos aqueles que, nos últimos anos, se propuseram nas urnas de votos. Nada que o líder do governo regional da Madeira e do PSD-M esconda: “estou disposto a derrotar e a afastar todos os que se atravessarem no meu caminho”, disse. Ele, que nunca escondeu o seu lado mais obstinado: “os amigos dos meus inimigos, meus inimigos são. Os inimigos dos meus inimigos meus amigos são. E disto eu não saio”.
O jardinismo instituiu esta dialética ao longo de três décadas: que ninguém, além do poder executivo, tem legitimidade para avaliar a respectiva acção governativa, sendo certo que o que fez, faz e fará, foi, é e será para bem de todos e em nome de todos. Como que se fosse uma tremenda ousadia questionar as decisões do poder soberano. Como se fosse crime escrutiná-las todos os dias. Vezes sem conta fui pela Madeira adentro perguntar o que acham as pessoas da governação, do desenvolvimento e do crescimento, dos progressos e retrocessos, da qualidade de vida, da educação e da saída profissional dos seus fllhos, da eficácia dos serviços administrativos, da morosidade da justiça, da prestação de cuidados nos centros de saúde, enfim, saber que avaliação fazem da acção governativa. E, salvo raras excepções, a resposta saía trémula da boca daquela gente, que confundia a figura de Alberto João Jardim com todos os tipos de poder – executivo, judicial, legislativo. “Se o senhor governo acha bem, a gente também acha que sim”, respondiam. O eco da iliteracia, daquela acrisia do pensamento, davam-me um aperto no coração. Mas aquela aguda abstinência crítica, não acontece por acaso. É fruto da máquina, igual ao espremedor de laranjas que Jardim utiliza para fazer saltar os caroços aos apoiantes de Albuquerque e ver onde está o sumo no partido. Afinal, quem são os cidadãos madeirenses para saberem o que o cidadão madeirense Jardim quer?