M.F Por circunstâncias da vida, o cancro bateu-nos à porta sem avisar e de forma devastadora. A primeira vez foi há dezanove anos e vivemos com "ele" catorze. Impensável segundo os médicos, nunca desistentes contudo. Mas o amor à vida e a evolução da medicina/tratamentos, contrariaram o prazo do veredicto. Só muito mais tarde aconteceu a partida. Durante esses longos anos, o Hospital Central do Funchal, foi muitas vezes a nossa casa. Os médicos e os profissionais de saúde a nossa família e o suporte para enfrentar os momentos mais difíceis. Há catorze anos, as condições do Serviço de Oncologia eram muito precárias, sombrias e deprimentes. Doentes à espera sem terem onde se sentar, longas horas de espera e o suplicio de, após a consulta, se seguirem os tratamentos arrasadores mas inevitáveis. Todavia, a qualidade dos serviços prestados e o humanismo dos profissionais foram sempre exemplares e merecedores de nota máxima. Há quem fale que já não existem milagres, puro engano! Quem disse que os milagres são só obra dos que são considerados Santos? Todos os dias, naquele serviço, acontecem verdadeiros milagres: gestos de carinho, um abraço, choro partilhado, sorrisos e esperança, muita esperança! Há um ano este "inimigo" fez uma traição: meteu-se comigo! Fiquei sem fôlego, mas, mais uma vez, uns "santos milagreiros" do Centro Hospitalar do Funchal entre cirurgião e serviço de oncologia, vieram ao meu encontro e "contra ventos e marés" encarregaram-se de o colocar no devido sítio, para já, pelo menos! Sim, porque não há garantias de um novo reencontro. Durante este novo e recente percurso, verifiquei que o velho serviço desapareceu e deu lugar ao hospital de dia, que os doentes já têm lugar para se sentar, tv, revistas e jornais para lerem, mesmo que" fora de prazo" e que a cor fez desaparecer o sombrio de outrora! A dor "interior " de cada doente, os seus momentos a sós, os seus medos e as suas dúvidas, são experiências próprias e únicas, impenetráveis, mas todo o ambiente à sua volta (quer ao nível de acomodação/conforto, quer ao nível humano) faz a diferença na forma como esta dor pode ser aliviada. Parabéns a todos os que trabalharam para que o hospital de dia se tornasse uma realidade. Parabéns a todos os profissionais e voluntários que de forma "gratuita" se dispõem para o bem fazer num quadro de doença e fragilidade humana muito complexo. A terminar, só não mudou o mais importante, porque manteve sempre o seu nível de excelência: a qualidade dos serviços prestados e o amor aos doentes! Bem Hajam!