Afirmou: gastámos mais do que devíamos, temos que pagar as dívidas; estamos no bom caminho, recuperámos a nossa credibilidade. A afirmação de que gastámos mais do que devíamos é tão verdadeira como dois e dois serem quatro. Analisemo-la. Sabe o Prof. que, neste País de emigrantes, muitos deles deixando "na terra" mulher e filhos pequenos, constituem seu procurador pessoa considerada idónea. Não raras vezes, ao regressarem, verificam que afinal haviam confiado em trapaceiros. Muitos "procuradores" (os eleitos), sufragados nestes trinta anos, em nome dos representados, contraíram dívidas excessivas. Chamo de pequena política a caça ao voto. Prometiam tudo, construíam demais e diziam: "as gerações vindouras pagarão, pois, o edificado é também para elas". Contrariar isto era ser "tonto". Imagine-se que a Maria das Couves, casada com o Zé dos Anzóis, residentes no Pulo do Lobo, Alentejo profundo, onde, há anos, se refugiou um 1º Min., por querer ignorar notícias, o ouviram dizer …"gastámos demais". Perplexos interrogar-se-ão onde e em quê? Logo eles, que apenas trabalharam e raras vezes viram ou leram notícias, tão pouco pediram dinheiro ao banco. Suporte da economia de um Estado soberano, é o conjunto dos bancos e o seu "polícia", o banco emissor. Formam o sistema financeiro. Maria das Couves e Zé dos Anzóis, assim tratados apenas depois das eleições, porque antes da "cruz"…faz favor, são dois importantes cidadãos, com direito de voto! Amedrontados, iludidos ou chantageados (de certeza pouco ou nada elucidados!) lá fizeram a cruzinha. Contentam-se com pouco, chega-lhes: saúde e trabalho remunerado. Tratam eles do resto ou seja, sobrando algum no fim do mês/ano vai parar ao banco. Querem juros, pelo que amealham. Lá virá a doença, uma dificuldade… Regra de ouro, no chamado "ocidente" é: garantir juros aos aforradores e confiança nos bancos. Pode, deve, o "polícia "-Banco Central- intervir quando, no sistema surgirem anomalias. A confiança das Marias e dos Zés não pode ser traída! A adesão à Europa trouxe euforia e muito dinheiro. Ouviu-se: "tivesse eu recebido esse dinheiro todo e nunca perderia eleições". Em 1992, o País exultou por ter consumado a reforma da Política Agrícola Comum, que a Alemanha e a França não haviam conseguido. Era um País ufano, estava com os ricos da Europa. O sector primário, a partir daí, passou a ser olhado de lado, como parente pobre da economia. Questionar esta pletórica riqueza, obtida por osmose na Europa, era coisa de idiotas. A actividade produtiva baixava, a dependência externa aumentava. No nosso País circulava dinheiro abundante e a fiscalização do sistema financeiro não foi eficaz. Um banco privado - BPN- mercê de uma gestão ruinosa, arranja uma dívida de milhares de milhões. A necessidade de credibilizar o sistema leva à sua nacionalização. A consequência foi o aumento da dívida pública. A isto, juntam-se obras que qualquer gerente bancário recusaria financiar. No topo da pirâmide, porém, as obras são financiadas para suportar a prestidigitação eleiçoeira. Aqui está, como todos os pacatos cidadãos acabam tendo uma dívida monstruosa para pagar. Chegámos à última etapa, o sistema financeiro internacional que tanto nos apoquenta quando ouvimos; não é só aqui, é em todo o Mundo. A pequena Europa tem muitas nações. Dilacerada por várias guerras no seu território ao longo da História, rendeu-se à Paz no fim do horror da 2ª Guerra. Criou-se então o Mercado Comum. Nesse trilho, de Paz e unidade, procura a Europa dimensão Económica, daí a moeda única. A decisão, porém, não foi acompanhada de medidas que, para credibilidade do euro, evitassem os conflitos gerados nos egoísmos nacionais. As formigas do Norte têm razão na denúncia do despesismo dos dirigentes (não o povo votador) do Sul. Atendendo, porém, ao intragável "óleo de fígado de bacalhau" (mais IVA, IRS, IMI etc.) que nos prescreveram, mesmo sem os tanques e aviões de 1939 o sofrimento já anda lá perto. Um plano Marshall não aplacaria as divisões Norte-Sul? Ele (Plano Marshall) permitiu mostrar ao Leste as vantagens do capitalismo e arrancar uma economia destruída pela guerra. Haja vontade política de resolver o problema. A não ser assim, os grandes patriotas e os "procuradores" que dos Países do Sul já levaram 80.000 milhões de euros para a Suíça, mais euros levarão (têm direito a estabilidade para o "seu" dinheiro) entalando ainda mais os Zés e as Marias, ditos seus compatriotas. Morrerão à fome os "patas rapadas" mas amortizarão a dívida que outros contraíram em seu nome.
Gaudêncio Figueira