Serás vivo ou morto quanto a tua ideia. Por isso trago hoje à companhia dos leitores alguém que, tendo feito recentemente a sua despedida biológica aos 85 anos, continua vivo e operante à nossa mesa. E trago-o, precisamente hoje, 11 de Outubro, em que o Vaticano abre as comemorações do cinquentenário do Concílio Vaticano II. Ele que foi um intrépido bandeirante da revolução conciliar! É o cardeal Marco Martini, bispo de Milão, biblista consumado, descobridor do que melhor possui a alma humana, promotor do diálogo entre forças encarniçadamente degladiantes e de que é prova eloquente aquele gesto das Brigadas Vermelhas quando vieram depor as armas de guerra aos pés do humilde bispo de Milão. Homem de garra, de uma lucidez espacial, sobretudo perante uma Igreja que ele via depauperar-se e esfarrapar-se dia após dia. "Na Europa e na América, a Igreja está cansada, atrasada em 200 anos", disse na sua última entrevista ao "Corriere della Sera". Razões e soluções: "A Igreja tem de assumir os seus próprios erros e operar uma mudança radical, a começar pelo Papa e pelos bispos". E mais dizia: "A Igreja tem medo…se Jesus voltasse, lutaria contra os actuais responsáveis da Igreja, que não ficassem fechados em si mesmos, que olhassem para além das instituições, que constituíssem uma Igreja simples, humilde, com menos burocracia, que não dependa dos poderes deste mundo, enfim, uma Igreja inventiva, jovem". Que explosão de juventude, vivas cascatas de luz estas palavras saídas de um veterano octogenário! Particularmente aos colegas no episcopado proclamava: "Não pense o bispo que poderá guiar os fiéis da sua diocese impondo ordens e decretos, proibições e juízos negativos. Aposte, antes, na formação interior, o gosto e o amor pela Sagrada Escritura, apontando as motivações positivas para actuar segundo o Evangelho". No entanto, debatia-se consigo próprio, "discutia com Deus" e reconhecia o drama da ignorância, da inveterada colonização das mentalidades: "Na Igreja de hoje vejo tantas cinzas escondendo as brasas que por vezes me sinto impotente e pergunto-me como poderemos libertar essas brasas e fazer vir ao de cima a verdadeira chama do amor". Era a esta chama do amor, escondida pelas cinzas da desinformação teológica, que ele se referia quando disse: "Nem o clero nem o direito canónico podem substituir a interioridade do homem. Todas as regras externas, leis, dogmas devem servir de elementos para aclarar a voz interior e o discernimento do espírito". Foi deste homem que se falava no conclave de 2005 para suceder a João Paulo II, mas quando um jornalista o interpelou sobre essa hipótese respondeu com um típico humor italiano-vero:"Será possível preferir um martini bianco (branco) a um martini rosso (vermelho)?!" Como seria a Igreja, se Carlo Maria Martini tivesse sido eleito Papa ? --- a pergunta vinha estampada nos grandes jornais europeus. Carlo Maria Martini é vivo e está com muitas outras vozes da Igreja contemporânea, umas abertas e consentidas, outras abafadas e anatematizadas pela hierarquia, entre as quais a do anterior bispo de Argel, Henri Teissier: "É nos momentos de tensão que a Igreja deve estar presente e intervir, sob pena de ser infiel à sua missão". Ouvimos também Frei Acílio Mendes dizer na última semana bíblica da Madeira, em Santa Clara:"A Igreja é Mãe e Mestra. Mas também tem de ser discípula. E às vezes é madrasta.". Quando chegará o Vaticano II à Madeira? Cinquenta anos depois? Já não seria mau!
Um morto vivo Carlo Martini
Quando chegará o Vaticano II à Madeira? Cinquenta anos depois? Já não seria mau!