As eleições nas nove ilhas dos Açores proporcionam momentos de reflexão. As notícias de hoje lançam alguns alertas. Retive algumas.

Um Cordeiro conciliador. Vasco Cordeiro tem 39 anos, mas não é um recém-chegado à política açoriana, onde já foi deputado, líder parlamentar e secretário regional. Talvez também por isso conseguiu ser eleito com mais votos e mais deputados que Carlos César em 1996, quando o PS interrompeu o ciclo de 20 anos de poder social-democrata de Mota Amaral. Da noite eleitoral, regista-se a disponibilidade para a inclusão: “Todos são bem-vindos nesta tarefa que agora lideramos de levar os Açores para a frente”. Tivessem todos os presidentes os mesmos propósitos e as Autonomias teriam outro encanto.

Passos perdido. Os jornais de hoje são unânimes em considerar que a austeridade promovida pelo governo de coligação deu nova maioria ao PS nos Açores. O ‘Jornal de Notícias’ vai mesmo mais longe e escreve que os autarcas PSD arrasam Passos após a derrota, assumida com pressa pelo próprio líder nacional. Contudo, o que terá provocado maior irritação nas hostes já a pensar nas Autárquicas é que Passos repetiu a tese “que se lixem as eleições” embora em versão mais polida, a de que apesar dos maus momentos por que o PSD passa em termos nacionais, “fica a certeza de que não comprometemos o país e a estratégia nacional com os resultados das eleições regionais”. Comprovadamente ir a votos pelo PSD passa ser lixado.

Lições para Jardim aprender. As transições políticas quando feitas com honestidade e lucidez não provocam dramas. Carlos César percebeu a tempo que era chegada a hora de libertar-se do desgaste de 16 anos de governação. Ao contrário de Jardim, permitiu a renovação do partido, lançou com serenidade um novo candidato a presidente do Governo e o PS venceu as eleições com nova maioria absoluta. Para além de uma sucessão pacífica, César consegue uma saída digna e promissora. Abrem-se agora portas na política nacional, ambições que muitos outros tiveram mas nunca souberam concretizar.

PSD-M a fingir distância. Não é conhecida nenhuma posição oficial do PSD-M sobre o desaire, como se não tivesse nada a ver com o caso. Importa recordar que em Abril último Manuel António Correia foi ao congresso do PSD-A bater palmas a Berta Cabral, partilhar “um forte abraço de incentivo e estímulo" enviado por Jardim e, imagine-se, elogiar Passos Coelho por ter “uma tarefa patriótica em mãos”, desempenhada com sacrifícios pessoais e sem olhar à sua cor partidária, o que na altura mereceu “reconhecimento” e uma promessa: “Pode contar com o PSD-Madeira nessa tarefa. Somos profundamente solidários e estamos empenhados no seu sucesso, porque o seu sucesso será o sucesso de Portugal, o sucesso da Madeira e o sucesso dos Açores”. A falta de memória é tramada.

A gafe de Seguro. Eufórico com a vitória, o secretário-geral do PS não mediu as palavras. E saíu lapso: "Estamos juntos num projecto que afirme os valores que hoje foram sufragados nos Açores e que estou certo que serão sufragados em Portugal na devida altura". Para o PS, Açores não é Portugal?

Abstenção lamentável. Mais de metade dos açorianos absteve-se. 52,1% não quiseram participar no sufrágio, fenómeno a que não é alheio o facto do arquipélago ser pródigo na emigração e padecer de dispersão geográfica. Para quem gosta de comparações, neste capítulo os madeirenses levam a melhor, uma vez que nas ‘regionais’ de há um ano as baldas chegaram aos 42,6%. Por isso, convém ter cautela com a importação das lições de cidadania.

86 votos de ouro. O grande vencedor da noite nos Açores foi o monárquico PPM. Apesar de apenas ter alcançado 0,08% (86 votos), conseguiu manter o seu deputado pelo círculo do Corvo! E assim vai a democracia em Portugal, apesar do denominado círculo de correcção num sistema eleitoral a carecer de reforma.

A importância do serviço público. Quem conseguiu seguir toda a noite eleitoral através da RTP-A percebeu as razões que levam os açorianos a lutar sem hesitações pela sua televisão. Retive a qualidade de uma emissão sem histerias, mas acima de tudo a afirmação do jornalismo insular, sempre o primeiro a perguntar, talvez porque os partidos não se rendem facilmente às vedetas das televisões nacionais.

O regozijo indisfarçável. Até o insuspeito ‘JM’ manifesta na edição o contentamento descontente pela derrota da família social-democrata açoriana e nacional, não se sabe pela tentativa desesperada de cumprir finalmente o seu estatuto editorial, o que seria louvável, se para disfarçar os últimos atentados à deontologia, publicando artigos não assinados a recomendar votos em Jardim, outros de assinatura suspeita a ofender sem escrúpulos adversários políticos e ainda encomendas específicas para denegrir os que pensam diferente. Tudo isto é pago com dinheiros públicos: a esta hora já foram descongelados os 11 mil euros que o jornal de campanha espatifa em cada dia. Tudo isto sem a intervenção do regulador. Tudo isto sem reparo público. Tudo isto é triste...