Há algum tempo alguém classificou a avenida Arriaga como sendo a sala de visitas da Madeira. Confesso que gostei da ideia, não só pela sua localização estratégica mas também pelos monumentos que estão junto à mesma, como o palácio de São Lourenço, Sé catedral, estátua de João G. Zarco entre outros. Ultimamente esta sala tem sido palco de muitos e variados eventos, alguns talvez mais adequados outro espaço. Mas na ilha, tal como nas casas que pintam a sua paisagem com pontos brancos e vermelhos, existem outros compartimentos igualmente importantes embora com outras finalidades, como por exemplo, a loja. Na maioria dessas casas a sala serve para receber visitas especiais como o Espírito Santo, fazer a lapinha, mas a loja, normalmente no piso inferior, não é menos importante. Para além de servir para armazenar o canteiro das pipas, o trabunaco das semilhas, a ressalga com a carne do porco, as enxadas e outras alfaias, aí também são recebidas visitas, por exemplo no S. Martinho, para provar o vinho, e na festa, para ver o porco. Apesar dos dois espaços em termos de acabamentos construtivos serem completamente diferentes (a sala tem sempre materiais mais nobres) em ambos os casos os visitantes, normalmente as mesmas pessoas, têm sempre a mesma importância e são sempre recebidos pelo anfitrião de igual forma. Mas as pessoas nunca confundem a finalidade de cada um dos espaços, ou seja nunca recebem o Espírito Santo na loja e colocam as enxadas e semilhas na sala. A sala de visitas da Madeira também deve ser assim, receber as visitas todos os dias porque uma sala desse gabarito e com tanta história à sua volta tem motivos para ter visitantes diariamente, mas as lojas da Madeira estão em igualdade de circunstância. E se tivermos em consideração o tipo de construção tradicional, a loja ainda é mais importante porque, como referi, normalmente fica no piso inferior servindo por isso de suporte aos outros compartimentos. Nunca se pode é colocar tudo no mesmo sítio, as rosas deixadas pelo divino Espírito Santo e o trabunaco (canteiro) das semilhas. Caso contrário, corremos o risco de confundir ou mesmo perder a nossa identidade.
Joel Freitas, Presidente da ACINM