1. Ainda me perguntam se me sinto mais português ou madeirense, mesmo após quase duas décadas de "exílio" em Lisboa. À provocação implícita respondo invariavelmente o mesmo, desde sempre: sou madeirense e continuo a sentir-me um intruso na capital do país, uma espécie de "estrangeiro residente". Lisboa acolheu-me e trata-me com dignidade, mas a minha terra não é esta e isso fala sempre mais alto. A pergunta tem um sentido que eu só clarifico em situações limite. No fundo o que os meus amigos querem saber é se alguma vez eu trocaria a nacionalidade portuguesa por uma hipotética e absurda "nacionalidade madeirense". É óbvio que me rio e opto pela resposta natural, referindo que o meu clube do coração é o Marítimo. Provocações à parte muitos continentais falam muito a sério desse cenário tão duvidoso como improvável. As pessoas que desconhecem as autonomias regionais e as suas características ultraperiféricas são unânimes: "governem-se que só nos subtraem dinheiro." Confesso que já me incomodou mais este tipo de atitude reacionária. Esta animosidade para com uma parcela do território tão portuguesa como outra qualquer. Mas quem tem alimentado esta situação? A população trabalhadora do arquipélago? Não. Essa não quer ouvir falar da separação da pátria nem deseja uma região a diversas velocidades. Mas já deveria ter posto um ponto final na carreira de quem tem o descaramento de lançar, sempre que a malha aperta, o fantasma da independência, quando esse alguém é o primeiro responsável pela situação dramática das finanças regionais. Os madeirenses começam, finalmente a interiorizar que quem os tem desgovernado desde 1978 lhes vendeu os anéis e hipotecou os seus dedos por muitas décadas. A conversa à volta de uma pretensa separação do todo nacional é ridícula e reveladora do desespero na manutenção do poder a qualquer preço. 2. Enquanto o país mastiga mais um anúncio do ataque fiscal que vai dizimar a classe média, o que faz o governo regional no seu reduto? Brinca às eleições no partido, utilizando o Jornal da Madeira (JM) como meio de propaganda do seu presidente. Enquanto a população da Região vê os seus salários a diminuir e as contas a aumentar, penalizados por uma austeridade redobrada, o que faz o governo e seus acólitos? Diabolizam, no JM, Miguel Albuquerque, o candidato que teve o descaramento de enfrentar o chefe de sempre. Enquanto se equacionam cortes na despesa do Estado de forma a "mitigar" os efeitos da bomba fiscal, o que faz o governo regional? Alimenta o capricho de um só e canaliza, ao que parece, 11 mil euros por dia para garantir a publicação do panfleto de propaganda partidária, que despreza a verdade, o pluralismo, o rigor informativo e os valores democráticos. Cada edição do JM é um escândalo sem paralelo. À vista de todos e com a bênção da Igreja, que sempre foi amiga deste poder. Reconhecida. Tudo parece distante desta maioria, que já não entende o sentimento da sua região. E quando isso acontece em política o melhor é iniciar um novo ciclo. *Artigo escrito segundo o novo Acordo Ortográfico.
Roberto Ferreira