Não é propriamente novidade que os organismos que atribuem os prémios Nobel têm uma agenda que ultrapassa a lógica dos critérios racionais e mais ou menos claros que deveriam nortear este tipo de decisão. É uma agenda política, insondável ou nem tanto, que transforma alguns dos prémios numa espécie de atribuição exótica e bizarra.
É nesta última categoria dos prodígios que se pode incluir a atribuição do Nobel da Paz à União Europeia. A estranheza desta decisão começa logo pelo facto de se tratar de uma união económica e monetária. É claro que já percebemos que a lógica financeira e os seus interesses dominam agora a nossa vida, até mesmo aqueles redutos que considerávamos a salvo de equações matemáticas, de agências de rating e das oscilações da bolsa. Percebemos, se calhar tarde demais, que os mercados invadiram a nossa felicidade, a capacidade de sonhar, de amar, de viver. O que era até agora pessoal e transmissível na medida da nossa vontade e desejo transformou-se numa transacção financeira de baixo valor e completamente subjugada a outros interesses mais altos.
O que o Nobel da Paz deste ano fez foi legitimar este estado de coisas, foi dizer que a economia é, de facto, a medida de todas as coisas e de toda a nossa humanidade. Elevar uma união económica e monetária à categoria de uma Cruz Vermelha ou de uma UNICEF, também elas já galardoadas com o Nobel da Paz, transforma-se assim na última tentativa de subverter toda a lógica do nosso mundo.
Mas os propósitos deste prémio vão ainda mais longe e mais fundo. O prémio pretende ser uma espécie de profilaxia contra qualquer movimento previsível e legítimo de um povo que já não se revê num sonho europeu que se esqeuceu de o ser, porque não tem em conta esses números a que se chamam gente. Gente que tem vida para além da estatística e dos merccados. Gente que tem saído à rua pelas cidades desta União galardoada com um prémio pela paz. Gente que não tem paz, porque esta não existe onde não se consegue plantar pão nem sonho.
O golpe cai por terra porque a paz não se promove nos altos gabinetes tecnocráticos da União Europeia, a paz promove-se onde existe a vida real e só se promove na exacta medida em que torna possível a vida com toda a sua complexidade e simplicidade. As guerras podem ser decididas nas altas cúpulas, mas a paz tem de nascer dessa humana condição de sentir que o mundo está no eixo e que é possível caminhar de cabeça erguida e deitar-se para amar sem o sobressalto de não ser possível a esperança.
Um povo inquieto e infeliz não pode ser travado por uma união forjada em verbos que não o conjugam, em interesses que não o convocam, em prémios que não o convencem.
A geografia do mundo não se desenha nos gabinetes do Nobel, mas sim nas ruas de uma União Europeia cada vez mais inquieta. Esta insónia que nos arrabata não se cura com cerimónias pomposas em Estocolmo ou em outro sítio qualquer. E este prémio não passa, por isso mesmo, de uma espécie de pensamento positivo de quem ainda não entendeu a matéria de que se fazem os homens, os países e qualquer união possível ou imaginada.