Os portugueses vivem hoje tempos difíceis, tempos inquietantes de vergonha e medo. De repente, esfumou-se a estabilidade social e a generalizada paciente resiliência de quem sabiamente percebe que os sacrifícios no imediato, para corrigir erros passados, são inevitáveis e só eles podem criar os fundamentos para termos, daqui a algum tempo um futuro mais promissor. Talvez… Agora é só indignação. Esgotou-se a tolerância com a austeridade. É como se se tivessem ultrapassado os limites e soltassem agora todos os freios ao protesto. Subitamente, parece que quem até agora tudo acatava, agora tudo recusa. A paciência esgotou-se da maioria do povo português e as autoridades, nomeadamente o governo e o Presidente da República navegam agora entre o medo e a vergonha. Sim, depois de tanto terem fustigado o povo, os membros deste governo escondem-se deste mesmo povo que os prossegue em manifestações de desagrado, carregadas de ódio e desilusão. São milhares ou milhões de pessoas que por todo o país se mostram enganados e desiludidos e querem mudança, com urgência, porque o sufoco é grande. A desilusão maior. "Quando os governantes manifestam medo do povo - e fogem dele - algo vai muito mal. Porque não aprenderam com "A Revolução dos Cravos que o povo é quem mais ordena". Dizia, a este propósito, Mário Soares no seu artigo de opinião, esta semana, no DN. "Dá a ideia que o medo mudou de campo pois até agora era o povo que manifestava este sentimento - medo - era a grande maioria do povo que não sabia onde toda esta agressividade austeritária iria acabar". Uma classe média totalmente destruída, uma grande franja do povo a passar fome, um desemprego que atinge já um milhão de pessoas. Agora, é só indignação, e a mudança de maré foi de tal ordem que deixou de se ouvir quem tinha opinião contrária. A indignação é um direito e há razões de sobra para a legitimar, razoáveis, verdadeiras e justas ou não? Mas, sobretudo, na situação delicadíssima em que estamos, tem que ser uma indignação responsável, que se defenda do populismo, da demagogia, do radicalismo inconsciente e do simples oportunismo manipulador. Uma indignação como manifestaram mais de um milhão de portugueses nas ruas de Portugal no passado dia 15 de Setembro. Tristeza e indignação também foi o que passou pelo coração de muitos portugueses quando na cerimónia de 5 de Outubro, na passada semana, o Presidente Cavaco Silva teve a peregrina ideia de excluir o povo da cerimónia. As ruas de acesso à Praça do Município estavam todas cortadas, por barreiras de polícias e de seguranças, não deixando passar ninguém, à excepção dos convidados. E para mais controlo, a cerimónia teve lugar no Páteo da Galé, um recinto fechado, onde só os convidados puderam entrar. Mas tudo, felizmente, correu mal. Tinha que correr porque esta "gente" anda apoderada de medo e vergonha. Muitos dos membros do governo estavam ausentes, incluindo o Primeiro Ministro e, quando, a bandeira nacional foi içada, foi posta ao contrário, "de pernas para o ar", significado ultrajante, em termos bélicos, de nação rendida. Como corolário desta cerimónia, onde o Presidente da República fez um discurso vazio, só faltava a contestação duma mulher faminta que queria falar com o Presidente e a voz de uma cantora lírica "improvisada" que cantou do Maestro Fernando Lopes Graça e poema de José Gomes Ferreira o "Acordai". Um apelo sentido a todo o povo para que sejamos solidários nesta luta em que todos temos de participar. O medo e a vergonha tomaram a face de quem nos dirige, sem visão e muita incompetência. As pessoas estão indignadas não tanto pelos sacrifícios que lhes pedem mas sobretudo pela falta de consideração que mostram por elas. "A política é a arte do compromisso, a arte do possível e não a da imposição cega do autismo total. Também não é a arte de incendiar massas com declarações tonitruantes. A isso chama-se demagogia e também tem sido feita a rodos." Há dias, Pacheco Pereira, num dos programas de televisão em que participa, semanalmente, dizia que esta crise era como o "Mito de Sísifo" onde nada pode mudar. Lembro que Sísifo era filho de Éolo e rei de Corinto, temido pelas suas crueldades e rapinas; foi condenado, depois de morrer, a rolar nos infernos uma pedra enorme ao alto de uma montanha donde ela tornava imediatamente a cair - o rochedo de Sísifo é muitas vezes citado em literatura para caracterizar um trabalho ou encargo extenuante e que renasce incessantemente, preocupações dolorosas e que se sucedem constantemente, uma tarefa árdua e um fim a prosseguir e que exige constantemente novos esforços e sempre em vão… No fim de contas, ele prossegue no seu tormento para que possamos superar o nosso, é o herói trágico e absurdo. "Para o ser humano existe a possibilidade de modificar a rotina absurda, de lançar longe o rochedo das misérias, da ignorância e da inconsciência, alguma para construir o próprio destino". A pedra de Sísifo tem, nos dias de hoje, outros nomes, mas é útil o trabalho de erguê-la. Deixemos que o rochedo role ladeira a baixo e que Sísifo prossiga como mito. Pensemos que poderemos superar aquele trabalho rotineiro, inútil e sem esperança modificando a nossa vida, o nosso presente e o nosso futuro. O inferno de Sísifo é a trágica condenação de estar empregado em algo que a nada leva. Por insolência fora castigado a realizar um trabalho sem esperança. Não seremos todos Sísifos que fazemos da nossa vida diária uma enorme pedra que levamos ao topo da montanha para que role ladeira abaixo no dia seguinte na rotina do trabalho que se repete sem variação ou renovação? Enquanto isto, é indispensável reconhecer o medo como o fantasma da pobreza material, mas acima de tudo o fantasma da pobreza espiritual, a mãe de todas as pobrezas. Depois do êxtase, produzido pela droga mercantilista surge agora, efectivamente, a depressão. Em todos os sentidos… é a depressão.
José A. Roque Martins