Enquanto a Madeira deitava as mãos à cabeça por causa dos mosquitos e dos primeiros casos de dengue, o presidente do Governo fazia mais uma das suas habituais viagens pela Europa. Primeiro a Polónia, depois Bruxelas. Nada a que, ciclicamente, não estejamos habituados. Quando chegou à ilha o normal, numa terra que fosse normal, seria reunir de imediato o Conselho de Governo - que já deveria ter reunido antes, extraordinariamente - para tomar medidas concretas contra uma praga que começa a ganhar contornos preocupantes e assustadores. Mas isso seria numa terra terra que fosse normal. Por cá, já todos sabemos, o normal só serve para justificar o que não é normal. Por exemplo: aqui é normal o presidente passar tanto tempo fora, é normal passar meses sem ir ao Parlamento e décadas sem aceitar uma debate que seja, é normal não haver alternativa, é normal o PSD tentar matar qualquer tentativa de mudança interna, é normal dizer-se as maiores barbaridades sobre independências e outras balelas, é normal haver monopólios, é normal haver um jornal ao serviço de um homem só, é normal ter obras desnecessárias, é normal ter uma dívida escondida, é normal dominar tudo o que são clubes, casas do povo e confrarias... Por cá, o anormal já é tão vulgar que muitos o tomam como normal. Mas não é. E, no entanto, chegado à Madeira depois de mais uma dessas viagens de duvidoso interesse para nós, que fez o Conselho de Governo: queixa formal em Lisboa contra a RTP-Madeira. Ridículo, pois claro! Mas aqui é normal. Entretanto, e depois de umas bocas contra tudo o que mexe, o presidente deu um conselho que se aproveita. Aliás, que deve ser levado à letra. Ontem, na Calheta, Jardim apelou ao sentimento revolucionário. E concretizou: "As coisas como estão não podem continuar". Ao tempo que daquela boca não se ouvia nada tão acertado. É verdade que quando se trata de mudar, o presidente diz que são os outros que o devem fazer e não ele. Logo, as coisas não podem continuar como estão mas é em Lisboa e na Europa e no mundo e em Marte e noutros planetas. Aqui, dirá que está tudo bem. Mesmo assim aproveitemos o ensejo reformista do líder madeirense para o ajudar nesta tarefa. Porque ele tem razão: "As coisas como estão não podem continuar". Não é mais possível manter um governo como o de Passos Coelho, Vítor Gaspar e Paulo Portas. Nisso está carregado de razão. O que faz o governo nacional não é mais do que um assalto à mão desarmada a todo um povo em nome de um estapafúrdio plano de consolidação de contas públicas em prazos inaceitáveis. É que já nem são apenas os esquerdistas, a oposição, os sindicalistas e os trabalhadores que reclamam. Agora são mesmo os patrões, os antigos ministros destes e de outros partidos, os antigos Presidentes da República, professores, médicos, motoristas, sapateiros, padres e bispos - mas não o da Madeira, que esse vive na paz do reino de Deus e não está para se chatear com a vida dos outros. Pois bem, aproveitemos o ideal revolucionário e façamos a vontade ao presidente do Governo. Mas, já agora, seria de todo conveniente aproveitar a onda e começar a revolução cá por casa. Talvez mesmo pelo mais fácil, por aquelas pequenas coisas que apenas servem a alguns. Que tal uma revolução para acabar com as reformas de políticos que vão morrer de velhos no poleiro da governação (e alguns da oposição) e acumulam ordenado e reforma, quando milhares não têm direito a ordenado, nem sequer mínimo? Como diz e bem o presidente, "as coisas como estão não podem continuar". Outra revolução: acabar com a sem-vergonhice de um jornal que apenas serve um líder que já deixou de governar mas nunca se demitiu de mandar nesse jornal e que serve para campanhas miseráveis contra o seus semelhantes. Não se trata de acabar com o Jornal da Madeira, nada disso. Apenas de o libertar dos grilhões do eterno presidente do partido que nos obriga a pagar bem mais de dez mil euros por dia para tentar aniquilar quem se lhe opõe, mesmo dentro de casa. O jeito que esse dinheiro daria para equipar as escolas, para garantir medicamentos, para dar dignidade aos pobres e velhos e crianças e famílias inteiras que vivem na rua da amargura. E que tal uma revolução contra quem nos hipotecou a vida? Contra quem contraiu e escondeu dívidas? Ou contra quem gastou ao desbarato em obras que só interessam a quem as fez? Ou sair para a rua com cartazes contra quem nos trouxe a este beco sem saída? Ou contra quem espatifou milhões em projectos que deram nada? Matéria não falta. Há muito mais actos e omissões que justificam o acertado apelo ao sentimento revolucionário. Aceitemos o repto num cada vez mais raro momento de lucidez. Afinal, conselhos destes não se ouvem todos os dias. Revoltemo-nos, pois. Apetece rasgar já uma tira de lençol velho ou colar cartolinas e escrever: "As coisas como estão não podem continuar". Por isso é preciso agir "mesmo pela via revolucionária, se necessário for". Sábias palavras.