O problema é o descrédito. Quando uma classe bate assim no fundo, não se pode admirar porque é que as pessoas criticam a compra de carros novos por parte de um partido em plena crise. Mesmo que exista legitimidade para o fazer. E tenham dinheiro para isso. Que é dos contribuintes, como o é sempre. Porque os grupos parlamentares recebem uma subvenção que é calculada tendo em conta o ordenado mínimo nacional e o número de deputados. Uma situação que pode fazer comichão no país ( e faz), mas é aberrante na Madeira, dados os valores que são conhecidos como Jackpot parlamentar. E é mesmo uma autêntica lotaria paga à custa de todos nós.
A meu ver não tinha mal nenhum os políticos andarem de Clio, Peugeot ou Citroen, até porque suponho – no meu conhecimento de leiga – que estes carros também tenham modelos adequados aos ‘status’ dos grupos parlamentares nacionais. Até podiam andar de transportes públicos, como toda a gente faz pela Europa. Ou a pé.
A verdade é que poderiam ter feito outra coisa. Comprar carros usados, por exemplo, já que os comerciantes que estão nesse mercado estão em grandes dificuldades para aguentar a crise. Claro que não se livrariam do selo de demagogos e isso daria pano para muitas mangas de debate. O que é uma inutilidade, quando o país tem tanto para resolver. Podiam fazer tantas outras coisas diferentes. É que cada vez que decidem assim, sem pensar na mensagem que passam, parecem ignorar as dificuldades dos cidadãos que os elegeram.
O problema não é a compra de carros em si. É a imoralidade que lhe está subjacente, num país sufocado em sacrifícios. É aquela coisa do exemplo que deve vir de cima, mas nunca vem. São os boys para quem ainda há alguns jobs. É a manutenção da Fundação Social Democrata na Madeira, que continua isenta de impostos, quando a receita fiscal na Região cai a pique. E para quê? Para que compre casas, como a do grande líder regional, para mais tarde lhe fazer um museu.
Tudo isto roça o obsceno. É verdade que a democracia tem um preço, como disse o líder da bancada parlamentar do PS. Mas é um preço, que dados os abusos, os excessos e os resultados, os portugueses dão sinais de não quererem pagar mais. Isso é perigoso e acentua mais as responsabilidade de todos os que têm lugar nos parlamentos e na governação. E ninguém escapa incólume. Há deputadas do BE a receber vaias em manifestações. Está tudo avaliado pela mesma bitola e a responsabilidade em inverter a situação, em dignificar as instituições democráticas, está toda do lado de lá.
E portanto, não sejam piegas e vão de Clio mesmo, que sempre é melhor do que aqueles que mandam os filhos a pé para a escola por não terem dinheiro para o passe ou gasolina.