A criação de uma taxa solidária de 2,5% sobre os altos rendimentos do último escalão de IRS poderia ter ido mais longe, num contexto de equidade fiscal. Embora seja mais simbólica do que eficaz, a verdade é que acaba por ser a mais sensata (única, diga-se) do novo pacote de medidas de austeridade, anunciadas há uma semana, pelo ministro das Finanças.

O agravamento da taxa de IRS dos actuais 49% para 54,5% pode deixar aborrecidos os contribuintes com maiores rendimentos. Mas nada mais do que isso. Pronto, talvez fiquem ofendidos com os cavalheiros do governo. Indignados, nem por isso. Revoltados? Eles sabem lá o que é isso! Lá em casa os frigoríficos continuam cheios, não falta dinheiro para as propinas dos filhos, para a casa no Porto Santo, para pagar a criada, o jardineiro e para levar o caniche ao cabeleireiro. Mas, como quem não se sente, não é filho de boa gente, é claro que eles ficam chateados. E não é para menos. Vir agora interposta pessoa obrigar a mudar hábitos… Isso é para pobres. Quem é o Vítor Gaspar para vir limitar o número de vezes que lhes apete jantar um carrefour foire au vin, roubar aquele prazer de deliciar um foie gras na esplanada de Paris ou aquele estupendo Boeuf Bourguignon servido na Grand Place, no coração de Bruxelas? Quem é ele para lhes levar o equivalente a mais do que dois subsídios, forçando a escolher entre o cruzeiro de Inverno pelo Báltico ou a viagem às ilhas Maurícias? Vir tributar os ganhos nas transacções em bolsa, as casas e os carros desportivos estacionados na garagem? Que chatice. Se os novos (velhos) ricos que cresceram à sombra de uma democracia imatura e displicente estão chocados com o escalão máximo de IRS em Portugal, acima dos 50% do Reino Unido ou dos 45% da França, porque não emigram? Porque insistem em falir o sistema de protecção social?

Contam-se pelos dedos os políticos emigrantes. Assim de repente, lembro-me de dois carismáticos, sem que nenhum deles desse bons resultados: Durão Barroso que foi presidir a Comissão Europeia entregando o país a uma crise política e José Sócrates que foi estudar filosofia para Paris depois de mergulhar o país numa crise financeira. Ora, está visto que políticos não nasceram para emigrar. ‘Jobs for the boys’ pode ser um estrangeirismo mas é cá dentro que faz mais sentido. Aqui há espaço para fazer trapézio entre a vida política e os cargos dirigentes na administração pública, nas autarquias e nas grandes empresas estatais, sobre uma rede chamada, no mínimo, de promiscuidade. Passos Coelho foi franco e tinha razão: emigrar é uma oportunidade pois já ninguém passa cartão a quem não tem partido.

Na Madeira, temos um emigrante de curta duração. Quando menos se espera, eis que o presidente do governo regional decide mudar de ares em viagens secretas à custa do erário e sem dizer nada a ninguém. Talvez seja dos tais ricos que aprecia aqueles Boeuf Bourguignon no centro de Bruxelas, mas num registo bem mais excêntrico, com escalas aqui e ali no banco traseiro de uma limousine alugada conduzida por um ‘chauffeur’. Mas Jardim é um cidadão indignado com as loucuras da ‘troika’ e muito revoltado com a injustiça social perpetrada pelo governo de Passos Coelho. Nos bonecos mal paridos do JM, os tais que são manuscritos pelo punho que dirige a Quinta Vigia, ficou bem evidente o seu desassossego. Jardim decidiu mandar uma ‘boca pequena’ ao primeiro-ministro, como se ele lhe ligasse, lembrando que “os de maiores rendimentos vão pagar mais, muito mais”, porque “os que ganham mais têm descontado mais, muito mais”. É a lógica da batata a murro servida a quem não tem mais do que semilhas para comer, não fosse a Madeira a única região do país onde é permitida a acumulação de pensões de reforma com vencimentos de cargos públicos e não fosse Alberto João Jardim um desses privilegiados, desses excepcionais contribuintes da Região Autónoma da Madeira que desatam a espernear e a falar em nome dos madeirenses quando lhe vão ao bolso.