O universo do conhecimento não se resume às letras e aos números. O universo dos afectos e das emoções não pode perder espaço quando falamos de aprendizagem. Aprendemos com o corpo e com a alma. Respirar, encher o peito e soltar o ar, pode ser o começo, o despertar da vontade e dos sentidos que nos estimulam o desejo de aprender. Rir, cantar e dançar são momentos mágicos, que tornam a vida mais doce e colorida. Porque será que tendemos a separar o que nos alegra e satisfaz, do simples acto de aprender. Não seria mais fácil se conjugássemos os diferentes ingredientes. Porquê tanta resistência, tanto receio de que o que é natural e espontâneo possa perturbar a concentração e assim prejudicar a aprendizagem. O ensino tradicional diz-nos que ninguém aprende sem regras, nem comportamentos adequados, premiados por melhores notas ou percentagens abonadas. Afinal também é possível ensinar com outro tipo de regras, onde cada um tem espaço para ser ele próprio, partilhando com o grupo o seu saber e as suas potencialidades. Todos temos potencialidades, que, mesmo quando não se exprimem num primeiro momento, num formato predeterminado, num contexto orientado para a aceitação do outro e para o respeito do grupo, rapidamente emergem e valorizam o espaço comum. Hoje em dia, quem ensina deve aprender a olhar os seus grupos de trabalho como fazendo inteiramente parte deles, uma peça que os completa e estimula, alguém que ensina e aprende. Alguém que não teme partilhar, que vê a escola como um espaço fundamental de vida, onde a propósito das matérias, se aprende a crescer, independentemente da idade, status ou formação pessoal. Não se cresce em conhecimento enquanto não se cresce em sabedoria. Sabedoria é saber estar consigo e com o outro, saber rir de si e dos outros, aceitar-se como é de dentro para fora, não tendo vergonha do que sente, nem do que o caracteriza como pessoa que é. Para que tudo isto aconteça é preciso alterar o conceito de aprender e diversificar as estratégias. Se naturalmente precisamos de nos exprimir, de mexer, de rir e de cantar, talvez tenha chegado a hora de integrar nos currículos de aprendizagem de "coisas sérias", de uma forma também séria e organizada, espaços de descontracção e libertação. Acredito que esta mudança de atitude só poderá trazer benefícios. Professores e alunos, aliás, pessoas mais felizes, quer no inicio, quer no final do seu dia de trabalho e consequentemente mais felizes ao longo da vida. A escola integra a vida, por isso tem que ser levada tão a sério quanto a brincar. Afinal também se brinca com coisas sérias…
Manuela Parente