As medidas que em cada dia são apontadas como necessárias para controlar os custos de funcionamento deste País e para suster a dívida pública e privada estão a empobrecer Portugal e a penhorar o seu futuro. Passámos repentinamente do oito ao oitenta e oito e caímos nos exageros que, infelizmente, são comuns quando se pretende cortar o mal pela raiz, só porque é preciso castigar e bloquear acessos a quem não soube utilizar bem as ferramentas de que disponha ou os fundos que lhe foram confiados. O corte radical tem custos a jusante que poderão acabar com o nosso futuro. Passos Coelho e os seus ministros, na cega obediência aos critérios que os estrangeiros nos impuseram para emprestar dinheiro, cortam mais do que a situação permite e o bom senso aconselha. Passados tão poucos meses temos como perspectiva um país parado, um povo empobrecido, sem alento nem vontade, vergado, uma vez mais, à sina de viver no aperto, contando os cêntimos para comer. Alguns (muitos) viverão de expedientes, outros (os mesmos crentes e outros desesperados que se agarram ao único auxílio que lhes poderá valer) continuarão, por seu lado, a pagar promessas em Fátima. Um folclore que conhecemos, mas que suponhamos estar em desuso por via de uma modernização que chegava e se aprontava com alguma satisfação de todos nós, nos últimos anos. Mas fomos enganados, pelos que nos fizeram crer que estávamos bem, pelos que nos ajudaram a gastar, e, agora, por estes, que fecharam o País, não para obras, mas para vender os despojos para pagar as dívidas. Ontem, em Lisboa, a secretária de Estado do Turismo, que de turismo pouca prática tem, disse que o Governo quer apostar no sector, e por isso está empenhado numa análise profunda, que vai estudar os dossiês, que vai procurar encontrar soluções, e que dentro de aproximadamente um ano apresentará propostas concretas, etc., etc. A conversa do costume quando se pretende adiar, quando não há projectos, nem ideias claras. Não me ocorre outra ideia que não seja incompetência e uma inegável falta de habilidade para lidar com o sector do turismo, de importância crucial para um país que poderá chegar ao final do ano com 800 mil desempregados, muitos deles sem qualquer meio de rendimento. Vidas ameaçadas e sem dignidade, pobreza envergonhada e escondida, enfim, potenciais protagonistas de um eventual cenário de descontentamento. Será a reconstituição do palco para novos grupos de indignados, que não são cartaz turístico em lado nenhum. Pois é. A senhora secretária de Estado – a culpa não é dela, mas sim de quem a colocou lá – acha que Portugal pode esperar por mais um estudo e pagar mais umas facturas a empresas de consultadoria, em vez de continuar o trabalho que estava a ser feito, e bem, ou de se juntar com os parceiros e falar abertamente sobre o presente e o futuro. Defendem alguns que um político não precisará de saber sobre o sector que irá tutelar, mas de saber ouvir, ser coerente e tomar decisões, de acordo com os programas político-partidários e as disposições estratégicas aprovadas e contidas nos programas de governo. É uma opinião, que não é a minha nem a perfilho, e que no sector do turismo, é muito discutível. Melhor ter sempre alguém que entenda sobre o que falam os seus assessores e conselheiros. A situação é uma vez mais de grande expectativa, mas de muita tristeza. Que desgoverno é este, que manda esperar um ano para tomar decisões? Que desgoverno é este que corta na promoção do destino e que não introduz uma política de propaganda agressiva nos mercados geradores de turismo mais importantes para o País? Está tudo identificado, agora é preciso actuar. Que desgoverno é este que ainda não entendeu que as constantes reestruturações no sector governamental do turismo criam instabilidade nos mercados e pouca confiança nos investidores? Vamos continuar pobres e submissos às ordens de quem tiver dinheiro para nos emprestar, em troco de independência e de uma riqueza que não estamos a construir. Vou acreditar que há um equívoco grande naquilo que foi dito ontem em Lisboa numa reunião de hoteleiros pela “menina” secretária de Estado. Porque se é verdade, este País não aprende, nem os nossos governantes se tornam adultos. Vamos continuar “à rasca”…